Não Basta Ser Flex

André Trigueiro

“Não basta disponibilizar o flex – que já responde por mais de 70% das vendas de veículos no país – e transferir para o consumidor a escolha do combustível que julgue mais apropriado de acordo com as conveniências: o bolso, o meio ambiente, ou circunstancialmente os dois. É preciso fazer melhor e mais rápido. A definição de prazos para que as montadoras acelerem o ritmo das inovações tecnológicas em favor da redução dos gases estufa é algo possível, necessário e urgente.” A opinião é de André Trigueiro, jornalista, em artigo publicado no jornal O Globo, 14-3-06.

 

 

Eis a íntegra do artigo publicado no jornal O Globo:

“O formidável avanço tecnológico que tornou a indústria automobilística nacional uma das mais competitivas e lucrativas do mundo não desobriga as montadoras dos ajustes necessários para enfrentar as crescentes ameaças impostas pelo aquecimento global. Estabelecer metas mais agressivas para aumentar a eficiência dos motores e reduzir as emissões de gases estufa na atmosfera deveriam ser questões não-vinculadas apenas às demandas do livre mercado, mas a objetivos estratégicos que fossem objeto de alguma regulação do Estado.

A mistura de 25% do álcool à gasolina, a expansão da frota de veículos movidos a gás e o boom dos motores flex contribuem para isso, mas não livram os veículos automotores do estigma de ainda serem os principais vilões do aquecimento global nos grandes centros urbanos – como São Paulo e Rio de Janeiro – bem como da poluição atmosférica, com impactos importantes sobre a saúde e a qualidade de vida da população.

“É possível reduzir a ameaça do aquecimento global e se beneficiar economicamente disso”, declarou recentemente o secretário de Meio Ambiente da Califórnia, Alan Lloyd, com a autoridade de quem introduziu uma regulamentação sem precedentes para o setor automotivo num Estado onde circulam 23 milhões de veículos (11% de todo o CO2 emitido pelos veículos nos Estados Unidos têm origem na Califórnia). Pelas novas regras, os veículos deverão emitir gradativamente menos gases estufa a partir do ano de 2009, devendo alcançar até 2016 uma redução de 30%.

No Brasil, a legislação que define as regras do Programa de Controle de Emissões Veiculares estabelece metas e prazos para que as montadoras reduzam as emissões de alguns gases poluentes, mas o texto da Resolução Conama n. 315 de 2002 não estabelece qualquer compromisso dos fabricantes em reduzir as emissões dos gases que agravam o aquecimento global, em particular de CO2 (dióxido de carbono), apontado pelos cientistas como o principal gás estufa. Em resumo, a situação poderia ser descrita da seguinte maneira: sabemos como fazer, mas não somos obrigados a fazer.

A superação tecnológica implica custos extras para os fabricantes que o consumidor saberá recompensar, seja pelo diferencial em termos de rendimento e eficiência – num mercado extremamente competitivo isso conta pontos preciosos em favor do produto – seja pelo desejo de contribuir para o não-agravamento do maior problema ambiental do século XXI, assunto que mobiliza cada vez mais fortemente governos, empresas e sociedade civil. Aliás, em vez de usar a publicidade para fomentar o desejo de possuir um bólido cada vez mais veloz – em cidades cada vez mais engarrafadas, o que poderia ser entendido como propaganda enganosa – a indústria automobilística poderia assegurar novos ganhos (financeiros e de imagem) investindo no conceito de “mais eficiente”.

Depois de um ótimo ano de 2005, em que foram vendidos 1,715 milhão de veículos – o mês de dezembro foi o melhor da história – com previsão de um aumento de 7,1% das vendas para este ano, as montadoras brasileiras não têm mais motivos para reclamar redução de impostos (quantas vezes o setor se beneficiou isoladamente da redução do IPI?) e poderia aproveitar o céu de brigadeiro para alçar vôo na direção do que em breve deverá ser entendido como regra nos principais mercados mundiais.

Não basta disponibilizar o flex – que já responde por mais de 70% das vendas de veículos no país – e transferir para o consumidor a escolha do combustível que julgue mais apropriado de acordo com as conveniências: o bolso, o meio ambiente, ou circunstancialmente os dois. É preciso fazer melhor e mais rápido. A definição de prazos para que as montadoras acelerem o ritmo das inovações tecnológicas em favor da redução dos gases estufa é algo possível, necessário e urgente.”

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André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro Mundo Sustentável – “Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003).

André Trigueiro gentilmente cedeu alguns artigos de sua autoria para serem publicados no Gibanet.com, mas infelizmente, pelo menos por enquanto, não é colunista oficial deste blog.

 

Clique aqui e leia mais artigos de André Trigueiro

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Andre Trigueiro

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro Mundo Sustentável – “Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI”, (Editora Sextante, 2003)

5 resposta para "Não Basta Ser Flex"

  1. Lino Tavares
    Lino Tavares   03/09/2011 em 11:39

    Quando a Globo e seus correlatos tomam partido em favor de alguma coisa de natureza filantrópica, política ou ambiental, via de regra, tem lucro grantido na parada. Com esse artigo supervalorizando o Flex não deve ser diferente.
    O que posso dizer, como usuário de veículo automotivo, é que tenho um Peugeot importado da França, com 8 anos de uso, e nunca deu oficina. Um amigo meu tem um semelhante, montado no Brasil, e já gastou quase o valor do carro em consertos. Como disse o Collor certa vez, nossas montadoras ainda continuam fabricando carroças motorizadas.

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  2. Delmar Antonio Marques de Souza
    Delmar Antonio Marques de Souza   03/09/2011 em 14:38

    Delmar Antonio Marques de Souza

    Concordo plenamente com os termos do comentário do eminente jornalista Lino Tavares, que muito bem analisou e concluiu as razões que fundamentam o bem lançado texto.
    Em face disso faço minhas as suas procedentes considerações. procedentes.

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  3. Taiguara   03/09/2011 em 22:40

    Discordo dos senhores em relação ao texto, pois justamente indica que não basta apenas ter a opção de um carro flex, e sim, os governantes interferirem nestas questões de emissão de carbono, segurança e tudo mais que envolve os automóveis, sua segurança e emissão de poluentes. Concordo nos dizeres que temos sim carroças vendidas como artigo de primeiro mundo, o que não serve para a Europa, EUA e Ásia, serve para o Brasil, basta comparar o Peugeot 206 e o VW Fox fabricado aqui e na Europa. Claro que o discurso das montadoras é que encarece o valor do carro, mas e lá? é opcional de graça? não, o fato é que nossos governantes não exigem das montadoras esta responsabilidade, aliás apenas uma delas, e nós pagamos sem reclamar. Para ser mais sincero, reclamamos sim, mas continuamos a comprar.

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  4. Lino Tavares
    Lino Tavares   04/09/2011 em 02:08

    Caro Taigura. Embora com pequeno ponto de divergência, acho que nossas opiniões sobre o enfoque da matéria em questão convergem para um denominador comum, já que ambos estamos cientes de que somos enganados por essa simbiose publicitária entre governo e empresas produtoras, que tentam nos vender gato por lebre, não raro desviando o foco das atenções para questões polêmicas como a política ambiental. Permita-me dizer que seu nome incomum me traz à lembrança a figura do grande cantor e compositor Taiguara, que marcou época nos anos dourados da MPB. Quem não lembra da famosa canção de seu repertório Üniverso no seu corpo”. Vale apena ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=qZmOQSLoG9U
    Abraços

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  5. Taiguara   04/09/2011 em 12:45

    É verdade Lino, acredito que isto seria assunto para longas jornadas em mesa de bar com ambos defendendo pontos de vista, mas realmente um ponto em comum seria inquestionável. Quanto ao meu nome, na verdade é meu apelido que ganhei por conta da casa dos artistas no SBT onde me confundiam com o Taiguara que participou na ocasião, mas alguns que conheceram este que é pouco lembrado e que eu não conhecia, tenho 39 anos ,as a partir daí fiz algumas pesquisas e realmente é pena cair no esquecimento, muito bom o vídeo no youtube, obrigado pela indicação. Abraços

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