A Culpa é Da Burguesia!

Nelson Valente

A educação brasileira vive um tempo curioso, para não dizer exótico. As novidades se sucedem – e o ensino está cada vez pior.

Em conversa com o professor Arnaldo Niskier (membro da Academia Brasileira de Letras) e dele recolho o espanto com que recebeu a notícia de que a Fundação Educacional do Distrito Federal recomendou aos seus professores que não tirassem pontos dos alunos que escrevessem errado. Ou seja, ninguém deve dar bola para a gramática e a ortografia.

Segundo uma confortável versão, quem se preocupa com essas coisas “é a burguesia”.

Particularmente, esgotei a minha capacidade de espanto diante de tais barbaridades.

Se o aluno toma conhecimento dessa estranha orientação, de que forma terá estímulo para demonstrar apreço pela língua portuguesa?

Ao mesmo tempo em que isso ocorre especialista em educação apontam erros mais frequentes anotados nas provas dos acadêmicos:

1. Falta de adequada ordenação de ideias, o que prova não ter o aluno o hábito de escrever;

2. Falta coerência e coesão nos textos;

3. Inadequação ao tema proposto (por falta de familiaridade com o tema indicado, o aluno foge para outro mais confortável);

4. Dificuldade em estruturação de parágrafos;

5. Erros de concordância nos tempos verbais, fragmentação da frase, separando sujeito do predicado por vírgula, utilização equivocada de verbos e pronomes, o que em alguns casos leva até a prejudicar a compreensão do texto.

Se isso é verdade no texto das redações, é fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.

Se os alunos têm dificuldades de escrever e expor com clareza suas ideias é porque sua cota de informação e leitura é mínima, para não dizer inexistente.Tenho insistido na vergonha em que se constitui a nossa taxa anual de leitura: menos de dois livros por pessoa, o que nos coloca muito longe das nações mais desenvolvidas.

Volto à Fundação Educacional do Distrito Federal para lamentar que os seus professores sejam instados a abandonar a ideia da redação, “porque em geral os temas dados aos alunos são irreais”.

Além disso, há o desprezo pelas regras gramaticais e ortográficas, como se houvesse um desejo recôndito de prestigiar a ignorância.

Não se quer exagerar os cuidados com a norma culta da língua, mas por que valorizar o linguajar sem regras?

A educação não existe exatamente para conduzir os alunos ao aprendizado?

Sobre a redação, permito-me discordar frontalmente da tese enunciada.

A ser verdade o que foi proclamado em Brasília, ninguém mais poderia ser escritor, dando asas à imaginação.

Só se poderia escrever sobre vivências claras, com o evidente abandono de tudo o que pudesse privilegiar a criatividade.

Nelson Valente é jornalista, professor universitário e escritor. Pesquisador nas áreas de psicanálise, comunicação, educação e semiótica. É mestre em Comunicação e Mercado e doutor em Comunicação e Artes. O autor também é especialista em Legislação Educacional, Psicanálise,Teoria da Comunicação e Tecnologia Educacional e já publicou 16 (dezesseis) livros sobre o ex-presidente Jânio Quadros e outros sobre educação, parapsicologia, psicanálise e semiótica, no total de 68 (sessenta e oito) livros e alguns no prelo. Ex-presidente da Academia Blumenauense de Letras/ALB, Acadêmico. Membro da Sociedade dos Escritores de Blumenau/SEB.

3 resposta para "A Culpa é Da Burguesia!"

  1. Rose   01/10/2010 em 10:34

    Nelson, A leitura é considerada um sistema simbólico, alicerçado
    na linguagem falada, que por sua vez depende
    da linguagem interior. A relação entre a palavra escrita
    e o sistema simbólico de significação é uma operação
    cognitiva que envolve processos específicos
    como a codificação, decodificação, percepção, memória,
    entre outros. Para a pessoa decodificar e atribuir
    significado ao que está escrito é preciso ativar sua
    estrutura representativa, atribuir significado ao código
    de modo a reconhecer a palavra impressa, atribuir a
    essa palavra o significado correspondente e compreender
    Escrever supõe tomada de decisões acerca do que
    vai ser escrito, como será escrito, que letras devem ser
    empregadas. Se alguém pede ao sujeito que escreva a
    palavra aniversário, ele terá que organizar as letras
    em um plano coerente e revisar o que foi escrito. Terá
    que lidar com diferenciações e negações para escrever,
    ou seja, diferenciar os signos entre si e excluir as
    letras que não devem ser utilizadas. É um processo
    muito lento a princípio que vai se tornando automatizado
    com o tempo, e essa automatização implica economia
    de memória e atenção, simplificando a tarefa,
    ao mesmo tempo em que se torna extremamente rápido.
    As dificuldades de aprendizagem em escrita podem
    se manifestar por confusão, inversão, transposição e
    substituição de letras, erros na conversão símbolosom,
    ordem de sílabas alteradas, lentidão na percepção
    visual, entre outros. Essas dificuldades podem se
    manifestar em áreas distintas como ao soletrar ou
    escrever uma palavra ditada.
    Para a maioria dos pais, bem como para seus filhos,
    o período de escolarização terá a exata duração
    da ausência da ajuda financeira em casa, que nas camadas
    economicamente menos favorecidas ocorre
    bem antes do previsto na lei. Repetindo a história, a
    partir do momento que tiverem que ingressar no mercado
    de trabalho, a escola ficará em segundo plano,
    muito mais se for associada à não-aprendizagem do
    conhecimento básico: “saber ler e escrever e fazer
    contas”, como diziam antigamente.
    Excelente matéria, abraço
    Giba amigo, abraço e obrigada por postar assuntgos interessantes.
    Rose*

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  2. Marilda Oliveira   27/10/2012 em 09:42

    Giba, da Burguesia? A tão conhecida elite judaico sionista?

    A ignorância a maior multinacional do mundo…
    Povo impensante não tem capacidade
    para descobrir as tramas demoníacas orquestradas contra a humanidade…

    Para que completasse, os sionistas trouxeram para o Brasil o também sionista Edgard Morin, (aquele que em palestras falando mansiiiinho, os universitários veneram…) para trabalhar na imbecilidade do ensino básico no Brasil. http://mudancaedivergencia.blogspot.com.br/2009/04/presenca-de-edgard-morin-no-brasil-ano.html

    No Brasil a mediocridade é um aneurisma asinino consolidado no centro do poder e com força de contaminação.

    Portanto, chego a conclusão que a mediocridade aqui instalada pode ser definida como mediocridade brasileira-atrativa, que é a órbita asteróide da qual nada, nem mesmo a inteligência universal, pode escapar, porque o não-saber e o querer-não-saber são terrivelmente fortes.
    Abraços,Giba.

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  3. Massucatti Neto
    Massucatti Neto   29/10/2012 em 12:01

    sem muito o que dizer,afinal ainda estamos presos a conceitos antiquados, onde a burguesia é letrada mas o proletariado continua analfabeto. a própria colocação em si é preconceituosa, aceitar que as diferenças de classe não estão apenas baseadas na economia, pior que isso, está baseada em conceitos educacionais, sendo uma mais preocupada em se expressar corretamente do que a outra.

    Não creio que alguém não aprenda algo apenas pelo não querer. acredito que se devidamente apresentada a cultura é sempre bem vinda, entretanto nesse país ser educado é crime, criou-se a cultura do diploma, ou seja, preciso é o diploma se eu sei ou não é irrelevante. Enquanto a educação for artigo de comercio, pouco ou nada poderá se esperar do nosso sistema educacional

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