Mais um Capítulo de uma História mal Contada

Ivani Medina

As críticas aos evangelhos estão mais centradas na análise das mensagens humanitárias, na identificação das suas prováveis origens mitológicas, na teologia, na falsidade histórica etc. Porque será que se desviaram da análise de um aspecto tão elucidativo do enredo, isto é, o povo que serviu de base para essa versão e a sua verdadeira participação nessa estória?

O personagem Jesus de Nazaré era galileu e a Galileia serviu inicialmente de cenário ao drama de Cristo. O imperador Juliano, o Apóstata (361-363), o último imperador pagão, como Josefo (Iossef ben Matitiahu ha-Cohen), fazia distinção entre judeus e galileus e, curiosamente, chamava os cristãos de “galileus”. Juliano respeitava os judeus porque entre eles não havia mendicância. O que poderia isto significar além das aparências?

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Anteriormente a Galileia, que era a área mais fértil da Judeia  esteve sob influência da Síria helenística e, ao que parece aos historiadores, isso pouco interferiu no modo de vida daquela gente simples. Era uma região ocupada por indivíduos de diversos povos que se miscigenaram e se fixaram ali, estabelecidos numa sociedade primitiva, sem uma classe dominante (HORSLEY, 2000, p.19), vivendo da agricultura de subsistência, da pesca, do artesanato e do comércio dos excedentes à margem da civilização. Nem senhores e nem escravos até a chegada dos judeus e, posteriormente, dos romanos.

Em 78 da era a.e.c. os ashmoneanos conquistaram e absorveram a Samaria, Edom, Moab, Galileia, Iduméia, Transjordânia, Gadara, Pela, Gerasa, Ráfia e Gaza. O judaísmo e a circuncisão foi um processo que os descendentes dos ashmoneanos impuseram aos seus novos súditos pela força da espada.  (DURANT, 1971, p. 415) Esses convertidos ficaram entregues a própria ignorância e eram desprezados pelos judeus de fato que os rejeitavam como iguais.

 “A submissão ashmonéia dos galileus e dos idumeus ao Estado-Templo de Jerusalém e às “leis dos judeus” não significava que eles estavam integrados no ethnos (nação/povo) judaico”. (HORSLEY, 2000, p.33) Rudes, e pouco versados nos costumes judaicos, esses pobres convertidos eram escarnecidos e desconhecidos como integrantes do povo judeu em Jerusalém. “[…]. Geralmente, porém, Josefo faz distinções claras entre os galileus e idumeus e os judeus como ethnoi ou povos distintos”. (HORSLEY, 2000, p. 33)

A causa disso pode ser explicada por estudos recentes, pois “Não existiam sinagogas na Galileia nos séculos I e II. Surgem só na metade do século III.”. (HORSLEY, 2000, p.121) […]. Os rabis, aparentemente descendentes dos primitivos escribas e sábios, mudaram-se da Judeia para a Galileia na onda da segunda grande devastação causada pelos romanos para reprimir a revolta popular generalizada contra o domínio de Roma […].  Eles finalmente se concentraram nas cidades da Galileia que mais haviam romanizado/helenizado no decurso do século II.” (HORSLEY, 2000, p.158).

revolta popular generalizada contra o domínio de Roma” Hummm, sei não. Em todo caso, aquela resistência camponesa contra os romanos assumiu o “messianismo libertador” dos seus antigos dominadores judeus, transformando-a em movimentos no judaísmo ignorante da periferia. Os líderes desses movimentos eram chamados por eles de “rei” (HORSLEY, p. 37), numa demonstração de resistência e não reconhecimento da autoridade estrangeira. Portanto, o personagem Jesus de Nazaré deveria chamar-se “o rei dos galileus” e não dos judeus.

 Josefo conta que a obstinação dos galileus pela liberdade era tamanha, que um grupo de salteadores galileus perseguidos pelos romanos buscou abrigo em cavernas nas montanhas. Quando uma família deles foi descoberta pelos soldados, o chefe daquela não hesitou em passar todos os seus no fio da espada e depois suicidar-se para que não se tornassem cativos. É uma boa ilustração para o temperamento de um povo feroz acostumado numa sociedade primitiva sem classe dominante e defensora incondicional dos próprios hábitos. Estes deram muito trabalho aos judeus e liquidaram boa parte deles, ao fazerem dos romanos um aríete contra os portões do judaísmo. Os galileus foram uma perfeita e perigosa massa de manobras

O fato é que o Novo Testamento não conta que tanto os romanos quanto os judeus eram odiados pelos galileus por motivos sérios. Um explorando-os com impostos, taxas, pedágios etc sobre todas as atividades, e o outro os explorando com as obrigações financeiras para com o templo. Esses descendentes de convertidos nada tinham a perder senão a própria vida, daí a opção pelo confronto com os romanos. Já com os judeus de verdade a história era outra: com o judaísmo sob a proteção romana, sendo bons pagadores de impostos que eram, trabalhavam no governo e eram admitidos como conselheiros de imperadores. Os galileus (judeus farjutos) é que eram os espoliados e revoltados dessa história mal contada e viviam às turras com romanos e judeus.

Os conhecidos zelotes eram galileus. Esse grupo teria surgido, segundo Josefo, por iniciativa de Judas da Galileia, lá pelo ano seis ou sete da era comum. Foram eles, e não os judeus, os precipitadores da chamada guerra romano-judaica de 66-70/3. Foram os zelotes os causadores da guerra civil em Jerusalém e responsáveis pela invasão de residências, estupros, saques e depredações naquela cidade. Foram eles que atearam fogo aos arquivos das dívidas para com o templo e aos paióis de provisões para forçarem os judeus a luta que haviam iniciado. Imaginavam os zelotes que Deus enviaria exércitos para ajudá-los na luta contra os romanos. Coisa de imbecil mesmo. Josefo os classificava de bandidos.

O termo “zelote”, cujo significado é “imitador” – isto faz todo sentido com o desprezo dispensado pelos judeus aos galileus, considerados ignorantes dos fundamentos dos seus preceitos religiosos, portanto se comportando apenas como imitadores – os cristãos insistem em dar ao termo “zelote” um significado mais religioso de “extremamente zelosos com a observância da lei” ou “devoção apaixonada pela Torah” de membros de um partido político judaico. Ora, nada mais falso, pra variar.

Antes do final da dita guerra romano-judaica de 66 alguns zelotes conseguiram escapar do cerco a Jerusalém e fugiram para Alexandria, onde tentaram se reorganizar e reiniciar suas atividades belicosas, mas foram entregues às autoridades romanas pelos dirigentes da comunidade judaica de lá. Judeus e galileus nunca se misturaram e até hoje “galileu” significa bandido entre os judeus.

Portanto, os romanos nunca oprimiram os judeus, como essa versão tenta fazer crer. Os evangelhos deixam claro seu antijudaísmo galileu. “As palavras mais autênticas do Senhor dos Evangelhos não são as palavras judaicas, mas sim as não-judaicas e as antijudaicas”  (STAUFFER cit. por LÄPPLE, 1973, p. 84) O que será que o imperador Juliano sabia a mais a respeito dos cristãos para chamá-los de “galileus”? Pois os galileus desaparecem de cena e foram indevidamente substituídos pelos judeus. Até Jesus passou a ser judeu oficialmente quando o ódio galileu deixou de interessar.

O grego Eusébio de Cesaréia, o pai da história eclesiástica, faz afirmações tais como: a comunidade de Jerusalém se compunha toda de hebreus fiéis (H. E. 4,5,2); que uns judeu-cristãos retornaram à Jerusalém após a guerra, e se reuniram em torno em torno dos parentes do senhor (H. E. 3,2); teria havido em Jerusalém quinze sucessões de bispos, todos hebreus da velha estirpe (H.E. 4,5,2). Por que os odiados judeus de repente ganharam a predileção eclesiástica? Porque o Antigo Testamento pertencia aos judeus. E ultrapassar o judaísmo a todo custo com um simulacro era a intenção dos redatores dos evangelhos.

 Referências

CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica, Editora Novo Século, São Paulo, s/d.

HORSLEY, Richard A. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia. São Paulo: Paulus, 2000.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus, Casa Publicadora das Assembleias de Deus, Rio de Janeiro, 1995.

LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1973.

Ivani de Araujo Medina

Ivani de Araujo Medina é um Homem com a percepção do descompasso existente entre a história e o favorecimento ideológico ao cristianismo

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