Salve Jorge – A invasão dos Signos (2ª Parte)

Nelson Valente

Nasce, no limiar do Século XX, a Semiótica. Ao longo de quarenta anos, um homem, numa assombrosa quietude, havia construído, paciente e criteriosamente, uma ciência, que se tornou um legado para a Humanidade.

Este filósofo, chamado Charles Sanders Peirce, até poucas horas antes de sua morte, lutava, na verdade, pela criação da Lógica, com o estatuto da ciência.

Sua vida, no entanto, foi uma travessia dialógica consigo mesmo, pois nenhuma Universidade sequer o considerou como lógico e tampouco filósofo.

Não é de se espantar, porém, que só um ser humano capaz de lançar-se numa aventura bem sucedida, rumo ao conhecimento pleno de 2500 anos de cultura filosófica, fosse capaz de conduzir-nos à criação de uma filosofia científica da linguagem: a Semiótica.

Charles Sanders Peirce não foi um homem de seu próprio tempo, mais foi o homem que desvendou a amplidão científica para todos os tempos.

A semiótica, cada vez mais, vem sendo utilizada no campo comunicacional como método de pesquisa nas mais diversas áreas, seja nos estudos das linguagens musical e gestual, da linguagem fotográfica, cinematográfica e pictórica, bem como pela linguagem poética, publicitária e jornalística.

Assim, fica cada vez mais evidente a necessidade de se compreender a relação do homem e a infinidade de signos existentes em nossa sociedade atual, como nos revela a autora da novela Salve Jorge [Signo] , Glória Perez. A linguagem humana tem se multiplicado em várias formas e novas estruturas e novos meios de disseminação desta linguagem têm sido criado.

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Salve Jorge

Justificativa

Ressalta-se de modo preambular que, como afirma Umberto Eco numa Premissa em O Signo, a invasão dos signos não é apenas típica de uma civilização industrial citadina onde impera todo um sistema complexo de sons e sinais. Pelo contrário, o Homo Sapiens teria vivido também num universo de signos indiciais: nuvens (tempo), folhas (estações), sulcos na terra (cultivo), musgo (norte), movimento do sol (horário), perfume, flores (direção do vento), pêlos (caça).

Adverte, porém, o célebre semioticista italiano, que estes últimos signos não são fenômenos naturais. Os fenômenos naturais em si não dizem nada. Os fenômenos naturais “dizem” algo ao homem à medida que esta aprende a lê-los. E que um homem “vive num mundo de signos não porque vive na natureza mas porque, mesmo quando está sozinho, vive na sociedade: aquela sociedade camponesa que não se teria constituído e não teria podido sobreviver se não tivesse elaborado os próprios códigos, os próprios sistemas de interpretação dos dados materiais (que por isso mesmo se tornam dados culturais)”.

Da imagem à escrita vai um longo e nebuloso percurso, mas podemos entrever que o Homo Sapiens utilizou de início o objeto-símbolo e a memória para guardar informações: o túmulo de um companheiro, uma pedra (objeto-símbolo) colocada sobre o túmulo, aproveitando de vários neurônios e manutenção apenas alguns com a informação necessária. Esta, em parte, passa a ser extra-somática. Os neurônios passam a exercer uma outra ação. A de verdadeira ponte sensorial entre o cérebro e o ambiente, incluindo o símbolo (pedra). Da pedra ao desenho da pedra no chão ou na caverna pode ter sido um passo. Daí, toda uma ordenação simbólica que fatalmente levou à escrita.

Creio que agora podemos divisar, na História da Cultura, a ocorrência de um processo gradativo de abstração sígnica que vai do ícone ao símbolo (segundo a graduação das categorias de Peirce), pois o desenho da pedra mencionada anteriormente é um ícone, bem como o desenho da cabeça de um boi para representar o boi é índice do boi. O índice, segundo Peirce, está fisicamente conectado com seu objeto, ambos formando um par orgânico. O desenho, enfim, da cabeça de um boi, feito nas paredes de uma caverna pelo Homo Sapiens, é em si um ícone, mas, como tem o objeto (boi) uma conexão de contiguidade (proximidade física), tornou-se um índice naquele momento. Poderá passar, no transcorrer dos séculos, porém, na escrita pictográfica, o símbolo. Como se viu, confirma-se a hipótese: primeiro veio a similaridade, depois a contiguidade.

Então teríamos: ícones (primeiridade – noções de possibilidades e qualidade); índices (secundidade – noções de choque e reação, incompletude); e símbolos (terceiridade – noções de generalização, normas e lei). Esta, a divisão dos signos feita por Charles Sanders Peirce, a mais importante, a segunda das três tricotomias, em que o signo mantém relação com seu próprio objeto. Para Peirce, “um signo ou representamen, é algo que, sob certo  aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa para alguém”. O signo só pode representar o Objeto e referir-se a ele.

Ícone: quando possui analogia ou similaridade, semelhança com o seu Objeto. Exemplo: uma foto de um automóvel, um desenho do saci-pererê, os ícones do Windows, o biscuit de um anjo, uma imagem mental, uma planta de uma cidade.

Índice: quando mantém uma conexão de contiguidade física com o objeto que indica. Exemplos: uma impressão digital, uma pegada sobre a terra do jardim, marcas de pneus sobre o asfalto, um dedo apontadopara um local.

Símbolo: está conectado a seu Objeto por forçada ideia da mente que usa o símbolo, sem a qual essa conexão não existiria. É um signo arbitrário, cuja ligação com o Objeto é definda por uma convenção geralmente social. Exemplo: as palavras de qualquer língua ocidental, uma vez que os ideogramas das línguas orientais são originalmente icônicos.

Cientistas norte-americanos, já no início da década de 80, descobriram uma onda cerebral que lhes permitiu observar o funcionamento da mente e até da consciência. Esta sutil onda cerebral só aparecia quando o indivíduo descobria uma falta de sentido no final de uma frase comum (“A faxineira varreu o chão com réguas”). A onda aparecia resgistrada numa tela logo que a mente reagia ao absurdo. Trata-se então de uma sutil assinatura elétrica da mente humana, relatada pelo doutor Steven A.Hillyard da Universidade da Califórnia. Estes sinais que acompanhavam processos mentais específicos foram chamados event-related-potencials (ERPs).

A citada experiência científica comprova hoje, mais do que nunca, que, além de a vida do homem moderno ser regida por signos, os meios de comunicação empenham-se numa luta contra a esteriotipação da linguagem diária, uma vez que, quanto mais previsível for uma mensagem, tanto menor será a informação dessa mensagem. Isto não é nenhuma novidade. Compara-se a frase comum como “Ponha um vaso sobre a mesa” com a famosa e bem antiga frase de propaganda “Ponha um tigre no seu carro”.

As mensagens criptográficas foram usadas nos anos 60 também como recurso de publicidade: no L.P. “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, lançado pelos Beatles em abril de 1967 na Inglaterra, e em outros long-playning subsequentes, havia uma série de “pistas” que indicavam uma suposta morte de um dos componentes da banda, Paul MacCartney. A capa do LP, que é uma verdadeira obra artística de montagem, apresentava uma série de índices e ícones como a mão espalmada sobra a cabela de Paul (indicando parada) e, dentre numerosas fotos, a do poeta da morte, Edgar Allan Poe.

O cérebro do homem é uma máquina hipercomplexa que, embora com funcionamento globalizante, é inteiramente fracionado em suas funções, as quais vão desde a lembrança do nome de um amigo até as de resolução dos problemas mais intricados da vida de uma pessoa. O cérebro tem perto de trinta bilhões de neurônios, uma parte dos quais especializados, outra a ser desenvolvida ao longo da vida, conforme a vivência de cada pessoa. Há neurônios capazes de identificar cores; outras, formas; alguns, movimentos.

Os dois hemisférios cerebrais apresentam características diferentes. O esquerdo encarrega-se das atividades lógicas, verbais e matemáticas: respeita a sequência, nomeia, encaixa, verifica linearmente, analisa, conceitua, usa signos linguísticos, considera importante a sintaxe. O direito processa as imagens e a intuição: vê similaridade (é analógico), é emoção, busca os paradigmas e rejeita os sintagmas, usa signos icônicos (navega melhor no “Windows” do que no “DOS”, enxerga diversas informações ao mesmo tempo (simultaneidade).

A mente ocidental tende para o pensamento linear e a mente oriental para o pensamento em imagens. Os orientais utilizam intensamente os dois hemisférios cerebrais, uma vez que o idioma japonês é composto de ideogramas que correspondem a sons. Quando lidos, a “imagem” ou desenho do ideograma é processado pelo hemisfério direito, enquanto o som correspondente ao vocábulo é intrepretado pelo esquerdo. O mundo ocidental, reduzindo tudo ao discurso lógico ou ideológico, acabaria com o lobo direito do cérebro atrofiado. Cremos nós que com a “invasão dos ícones” em todas as grandes cidades do ocidente, sobretudo nas mensagens publicitárias, nos videoclips, nas navegações pelo cyberspace (rede mundial de informação eivada de ícones), quebrar-se-á a “ilusão de contiguidade” e o mundo inteiro se orientará.

Tudo no mundo de hoje parece girar em torno da “informação”. As abordagens novas não se referem tanto à capacidade que o homem pós-moderno tem para aproveitar adequadamente suas potencialidades cerebrais. Fala-se em “revolução digital”, traduzindo-se-a como competência para acesso à informação. Oras, o simples acesso à informação não se traduz por conhecimento. Haverá talvez necessidade de, num futuro próximo, automatização interpretativa do volume de informações que chegam até nós.

A novela Salve Jorge, de autoria da escritora Glória Perez, é um mundo dos códigos e dos signos pelo estudo da linguagem, da comunicação, da psicanálise, do saber e de muitas outras formas. No entanto, a novela Salve Jorge não definiu seu objeto! Porque cada linguagem propõe um paradigma de mundo diferente.

Nascemos apenas com uma ideia na cabeça e não fazemos outra coisa senão desenvolvê-la ao longo de toda a nossa existência.

A autora Glória Perez, pensa consigo mesma: – “Será, então, que não é possível que haja uma mudança de vida?” De fato, Glória Perez, perseguiu tão-somente uma única ideia: uma novela em bases Semióticas que alerta para os problemas do cotiadiano.

Houve momentos, no decorrer do século passado, que a filosofia se recusou a falar do mental sob o pretexto de que não podia vê-lo. Hoje em dia, com as ciências cognitivas, as questões do conhecimento – o que quer dizer conhecer, perceber, aprender? – tornaram-se centrais. Os progressos da ciência permitem tocar naquilo que antigamente era invisível, o que obriga a Semiótica questionar: como é que a linguagem estrutura a percepção que temos da novela Salve Jorge? A novela Salve Jorge , está preocupada em fazer o telespectador  aprender a pensar. É uma novela que deve ser vista e discutida pelos educadores brasileiros, aos quais se recomenda atenção para o que ela representa em termos de educação moderna.

Desde os primórdios da humanidade, buscam-se explicações para o processo do conhecimento humano. Muito cedo, pensadores da antiguidade formularam hipóteses e geraram teorias que definiam a expressão humana como um processo representativo de suas formas de ver o mundo. Assim descobriram o signo, conceituaram-no e o decompuseram na intenção de, desta forma, compreender o conhecimento humano.

A investigação semiótica abrange virtualmente todas as áreas do conhecimento envolvidas com as linguagens ou sistemas de significação, tais como a linguística (linguagem verbal), a matemática (linguagem dos números), a biologia (linguagem da vida), o direito (linguagem das leis), as artes (linguagem estética) etc.

A Teoria dos Signos, criada por Charles Peirce, desempenha um papel de extrema importância em diversos estudos do campo comunicacional.

Peirce rompeu com a dicotomia significante/significado, esclarecendo o processo de significação, com sua noção de interpretante. Também propôs as tricotomias do Signo em relação a si mesmo, ao seu objeto e ao seu interpretante. Nunca chegou a dar como rigorosamente acabada a sua divisão e classificação dos diferentes tipos de signos.

Mas a classificação mais importante do signo peirceano é a que o divide as três tricotomias e as 10 classes principais, embora Peirce afirme também a existência de 10 tricotomias e 66 tipos diferentes de signos, entretanto, nomeia apenas o seu modo de geração, e não cada classe em particular.

Assim, um signo nunca aparece como signo “puro”. A tricotomia peirceana é um método de análise que permite distinguir entre diferentes aspectos da semiose, mas, quanto à sua realização ou ocorrência no mundo, nenhum signo pertence exclusivamente a uma destas classes.

Os signos podem assumir características diversas segundo os casos e as circunstâncias em que usamos. Todos necessitam, como vimos nas definições, do tipo de signo de ordem anterior (ou seu contexto). Como dizia Peirce, “todo signo tem um preceito de explicação, segundo o qual ele deve ser entendido como uma espécie de emanação de seu objeto.”

Este processo é contínuo. O signo e sua explicação formam outro signo. E este provavelmente exigirá uma explicação adicional, o que formará um signo ainda mais amplo. E assim, sucessivamente. As afirmações podem ser falíveis, como advertiu Peirce diversas vezes:

“Na comunidade de estudiosos, o processo global de desenvolvimento dessas formulações através da observação e do raciocínio abstrativo de verdades que devem permanecer válidas quanto a todos os signos utilizados por uma inteligência científica, constitui uma ciência da observação, como qualquer outra ciência positiva, não obstante seu acentuado contraste com todas as ciências especiais que surge de sua intenção de descobrir o que deve ser e não simplesmente o que é no mundo real” (1977, p. 45).”

A grande contribuição de Peirce, foi exatamente criar um modo onde podemos classificar um signo por meio de um método lógico. Peirce tentou fundar uma ciência geral dos signos que pudesse dar conta do mundo, da experiência humana e garantir a sua comunicabilidade. Sua reflexão sobre a linguagem, o signo e significação pontua os momentos mais importantes da história do pensamento ocidental.

A Semiótica, sabemos, está bem perto da origem da vida, uma vez que, sem informação e energia, aquela última não existe. Presume-se que o Universo tenha quinze bilhões de anos e sabe-se que ele não é somente este punhado de estrelas que vemos no céu à noite, quando não poluição. Apenas na nossa galáxia há 250 bilhões de estrelas; o que vemos é parte dela e há bilhões de galáxias no Universo.

Se passaram a existir seres vivos na Terra, após o “Bing-Bang”, grande explosão de toda matéria universal, foi graças às fusões nucleares do interior das estrelas. Muito tempo deve ter passado até que nosso sistema planetário tivesse esta trajetória estável e talvez um bilhão de anos até o aparecimento de moléculas orgânicas sobre a Terra.

A descoberta do código genético revela-nos a vida como linguagem. Na análise da evolução da molécula de ADN (ácido desoxirribonucléico), susbtância universal portadora do referido código, percebeu-se que aquela é capaz de armazenar informações mediante uma linguagem entre átomos. Esta linguagem é valiosa e legítima para todos os seres vivos, chamados “máquinas químicas” que perambulam sobre a Terra.

A vida, portanto, depende de informação que, por sua vez, coordena a energia-geradora dos processos dinâmicos-no meio biológico. O homem é um universo em miniatura. As vibrações de energia existentes no Cosmo também existem em cada célula do corpo e da mente do ser humano. Cada célula cumpre sempre o papel que deve cumprir no instante biológico exato. Segundo Crocomo, cada molécula tem de saber o que as outras moléculas estão fazendo e cada molécula deve ser capaz de receber mensagens, devendo, por assim dizer, ser suficientemente disciplinada para obter ordens e em muitos casos transmitir mensagens.

Já neste ponto, é importante ressaltar que a biologia moderna se compõe de dois grandes ramos: a biologia molecular ou celular e a biologia evolutiva. A cronologia cósmica, a natureza foi conseguindo estocar mais e mais informações na molécula de ADN, e assim conseguiu organismos mais e mais complexos na escala evolutiva.

Se pudéssemos perguntar a Peirce sobre os fatos da História em tráficos humanos, narrados na novela Salve Jorge, por estarem perdidos na noite dos tempos, ele nos responderia com inúmeras indagações:

Deixarão essas coisas de realmente existir por inexiste qualquer esperança de o nosso conhecimento alcançá-las?

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A autora Glória Perez, da novela Salve Jorge, alerta [Signo]: traficar pessoas é violar os direitos humanos. [Objeto Dinâmico ou Referente]: a mensagem de preservação das vítimas do tráfico humano. Partindo desse pressuposto, o enfoque principal da novela Salve Jorge, apela para o enfrentamento deve vir no sentido de uma melhor defesa e garantia dos direitos humanos das pessoas traficadas.

Observa-se o impacto da linguagem verbal (contiguidade: {Tráfico de pessoas}) sobre a não verbal, preponderantemente, no signo linguístico “tráfico”, intrepretado como “vítima de prostituição”, propiciando, por outro lado, uma operação intersemiótica que contrapõe sintagma verbal a sintagma visual. A imagem da novela Salve Jorge contrasta com a imagem do dia a dia na Boate da Turquia (Sintagma visual): signos icônicos, que se relacionam no interior da mensagem, por similaridade: indicando alguém é vítima do tráfico. O feeling , neste caso, para o Intérprete, é exatamente chocante, atira-o de maneira brutal, da secundidade para a terceiridade. O telespectador não tem como não entender a mensagem, ela é bem clara e direta.

[Interpretante e Referência] significados produzidos pela novela [Signo] Salve Jorge em relação ao objeto de conscientização a respeito da responsabilidade do receptor para o problema do tráfico de pessoas no Brasil.

[Fundamento do signo] a exposição de duas situações antagônicas, equilíbrio e desequilíbrio, vida e morte, em virtude do tráfico de pessoas.

Depois da morte do universo e depois de a vida ter cessado para sempre, não continuará a colisão de átomos, conquanto já não exista espírito que possa notar isso? E responderia: Há uns poucos anos, não sabíamos de que substâncias são constituídas as estrelas, cuja luz para atingir-nos pode ter exigido tempo superior ao da existência da raça humana. Não se pode dizer, enfim, que haja uma questão que não possa vir a ser resolvida, Aquém/Semiótica ou Além/Semiótica.

Seja o que for que pensemos, temos presente à consciência ou sensação, imagem, concepção ou outra representação, servindo de signo. Mas segue-se da nossa própria existência que tudo aquilo que nos é presente constitui manifestação fenomenal de nossa pessoa.

O que não impede que o fenômeno seja independente de nós.

Quando, então, pensamos, surgimos como signo.

Um signo para algum objeto que se lhe equivale e também signo sob algum aspecto ou qualidade que o liga ao seu objeto. Quando pensamos, a que pensamento se dirige este signo-pensamento que nós somos? Pode dirigir-se a uma outra pessoa mediante uma expressão externa, após considerável desenvolvimento interior; mas quer que isso aconteça, quer não, é sempre interpretado por um pensamento nosso subsequente.

Se a corrente de ideias prossegue livremente, acompanha a lei de associação mental.

Nesse caso, o pensamento que vem em primeiro lugar sugere algo àquele que vem a seguir, é signo –  Salve Jorge [Pragmático] relações entre a materialidade da novela, seu objeto e seu interpretante. O nível conotativo da leitura, o simbólico. O texto intermediário da novela Salve Jorge apresenta uma convocação para reflexão e informa os acontecimentos ameaçadores.

A leitura, com o tempo e a prática vira êxtase, é semelhante a um transe.

Referências Bibliográficas:

ECO, Umberto. O Signo. 5ª ed. Lisboa: Presença, 1997.Collected Papers of Charles Sanders Peirce. 8 vols. Cambridge: Harvard University Press, 1931 – 1958.

PEIRCE, Charles Sanders. Estudos Coligidos. Col. Os pensadores, trad. bras., São Paulo: abril, 1980 (ant.).

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia. 2ª ed., trad. bras., São Paulo: Cultrix / EDUSP, 1975 (ant.).

PIGNATARI, Décio. Semiótica & literatura. 6 ed. São Paulo: Ateliê Editorial: 2004.

PIGNATARI, Décio. Informação. Linguagem. Comunicação. São Paulo: Perspectiva, 1977.

VALENTE, Nelson. BROSSO, Rubens.Elementos de Semiótica comunicação verbal e alfabeto visual. São Paulo: Panorama, 1999.

________________ . Teoria Lógica dos Signos.São Paulo. Intermedial Editora,2009.

________________ .Semiótica. A invasão dos Signos. USA. Amazon, 2013.

Glossário

 

Os significados dos termos semióticos aqui apresentados, com intuito eminentemente didático, encontram-se nas obras que buscam intepretar o pensamento de Charles Sanders Peirce, as quais contam da bibliografia. São acepções mais frequentes e que, servindo como instrumental para os semioticistas, em muitos casos, coincidem com as próprias definições do Autor, tornando-se assim impraticável referi-las, em termos de autoria, uma a uma. Pretendemos com isso tornar de domínio comum a tais termos, aos “praticantes” desta ciência nascente “que ajuda a ler o mundo”.

Abdução: adoção de uma hipótese/argumento que apresenta fatos em suas premissas.

Acepção: o mesmo que sentido.

Argumento: signo de razão, signo de lei, correspondente a um juízo.

CD-Rom: compact-disc: (ready only memory) mídia de armazenamento de dados digitais.

Cognição: elemento constitutivo no processo do signo triádico ou semiose/parte de uma cadeia infinita de semiose ilimitada, de acordo com a qual ela é determinada por uma cognição prévia na mente do intérprete.

Contexto: processo de signos cuja coerência ou unidade é suscitada diretamente pelo referente (coisa ou situação a que os signos referem).

Contiguidade: inferência por proximidade.

Crítica: subdivisão da Lógica/procede a uma classificação dos argumentos, determinando a validade e o grau de força de cada um de seus tipos.

Cyberspace: ciberespaço/espaço cibernético/cultura da era das redes informáticas.

Dedução: único tipo de argumento que é compulsório.

Diagrama: representa algo por relação diádicas análogas em algumas partes.

Diagramas paradigmáticos: referem-se a todas as outras formas da mesma língua que pertencem ao mesmo paradigma.

Diagramas sintagmáticos: desenvolvem-se na linearidade da língua/referem-se principalmente às relações temporais, espaciais e conceituais.

 

Dicente: o mesmo que dicissigno.

Dicissigno: signo de fato, signo de uma existência real.

E-mail: (Eletronic mail)/ correio eletrônico/rede computacional.

Entes biológicos simulados: simulação digital de comportamentos inteligentes (peixes, pássaros),

Entropia: medida da desordem introduzida numa estrutura informacional.

Faneron: vide phaneron

 

Faneroscopia: vide phaneroscopia e fenomenologia.

Fenomenologia: base fundamental para qualquer ciência/observa os fenômenos e, mediante a análise, postula as formas ou propriedades universais destes fenômenos.

Gramática especulativa: subdivisão da Lógica/teoria geral da natureza significado dos signos.

Hipermídia: forma comunicacional alternativa que inclui áudio, fotos e vídeo.

 

Hipertexto: escrita não sequencial, onde autor e leitor possuem a capacidade de criar interativamente.

 

Ícone: é um representamen que, em virtude de qualidades próprias, se qualifica como signo em relação a um objeto, representando-o por traços de semelhança ou analogia, e de tal modo que novos aspectos, verdades ou propriedades relativos ao Objeto podem ser descobertos ou revelados/primeiridade/possibilidade.

Ícone puro: ícone genuíno/só pode ser uma possibilidade, em virtude de sua qualidade/primeiridade.

Ícones degenerados: são os hipoícones (imagens, diagramas e metáforas).

Ideoscopia: consiste em descrever e classificar as ideias que pertencem à experiência ordinária ou que emergem naturalmente em conexão com a vida corrente, sem levar em consideração a sua psicologia ou se válidas ou não-válidas.

Imagem: participa de qualidade simples, ou primeira primeiridade.

Indicador: o mesmo que índice.

Índice: signo que se refere ao objeto designado em virtude de ser realmente afetado por ele/secundidade/existente.

Indução: argumento que emerge de uma hipótese.

Interpretante: supersigno que está sempre se refazendo ao refazer a relação entre o signo e o objeto/terceiridade/significação/interpretação de um signo.

Interpretante dinâmico: provoca uma reação ativa na mente interpretadora/nível de secundidade.

Interpretante emocional: prova de que compreendemos o efeito adequado de um signo, embora as bases de sua verdade, neste caso, sejam muito tênues.

Interpretante energético: exige esforço por parte do intérprete.

Interpretante final: informação programada/opera com normas fixadas pelas leis impostas em temas absolutos à nossa aceitação/domina as certezas lógicas oferecidas pela dedução e pela indução/provoca na mente interpretadora o reconhecimento das normas estabelecidas pelo uso comum e desenvolvidas sob a forma de leis que caracterizam convenções e hábitos/nível de terceiridade/decide sobre a interpretação verdadeira de um signo, se o exame do assunto fosse levado a um ponto em que se atingisse uma opinião definitiva.

Interpretante imediato: informação não-programada/provoca na mente interpretadora, apenas, a captação sensível de sua qualidade que é um signo/nível de primeiridade.

Interpretante lógico: descrito como sendo a compreensão de um conceito geral, divide-se em lógico dinâmico (espécie de “ensaio dramático” indutivo e ativo, um rearranjo dos elementos levantados pelo Interpretante Lógico Imediato) e lógico final (que se apresenta como um hábito deliberadamente formado, inter-relacionando condições e comportamentos anteriores, que o signo está calculado para produzir).

Intérprete: usuário do signo.

Isoformismo: processo de identificação fundo-forma.

Jornalismo marrom: jornalismo sensacionalista/sem ética.

Legissigno: convenção ou lei estabelecida pelos homens.

Lógica: teoria do pensamento deliberado ou autocontrolado/ciência das leis gerais dos signos desdobráveis em três ramos: Gramática especulativa, Crítica e Metodêutica.

Lógica transuacional: o mesmo que Metodêutica.

Mass media: meios poderosos de difusão de informação.

Mediação: representação/terceiridade/pensamento em signos.

Mediático: relativo a Media ou Medium.

Mente: o mesmo que semiose.

Metáfora: representa o caráter representativo de um representamen , representando um paralelismo em outra coisa/representa um paralelismo com alguma outra coisa.

Metodêutica: subdivisão da Lógica/ dedica ao estudo dos métodos a serem observados na investigação, exposição e aplicação da verdade.

Midiático: relativo a Mídia.

Objeto dinâmico: refere-se a relações ilimitadas que o objeto contém ou suscita e que é o único passível de investigação científica.

Objeto do signo: coisa, objeto ou evento, concretos e identificados.

Objeto imediato: refere-se a uma ideia particular do objeto/uma qualidade de sensação que só pode ser conhecido por sentimento.

Obsistência ou resitência: aquilo no que a secundidade difere da primeiridade/elemento que, tomado em conexão com a Originalidade, faz de uma coisa aquilo que uma outra a obriga a ser.

Originalidade: é ser tal como aquele ser é, independentemente de qualquer outra coisa.

Phaneron: tudo que está presente à mente em qualquer sentido ou em qualquer modo que seja, não levando em consideração de que se  trata de um fato ou ficção/qualidade de um sentimento.

Phaneroscopia: descrição dos phanerons ou fenômenos.

Pragmático (nível): implica nas relações significantes com o intérprete, ou seja, com aquele que utilza o signo.

Primeiridade ou Primariedade: modo ou modalidade de ser daquilo que é tal como é, positivamente e sem qualquer referência a outra coisa/forma quase-sígnica da consciência.

Qualidade: algo que é tal como é, e que está de tal modo livre da Obsistência que não é nem mesmo auto-idêntico ou individual/primeiridade.

Qualissigno: qualidade que é um signo.

Reação: relação de dependência/secundidade/caráter factual da experiência/conflito.

Referente: o mesmo que Objeto.

Relação: vide Reação.

 

Relação triádica: relação em que o primeiro correlato (Representamen) determina, sob certo aspecto, um terceiro correlato (Interpretante), estando em alguma relação existencial para com o segundo correlato (Objeto).

Rema: signo que para seu interpretante funciona como signo de uma possibilidade que pode ou não se verificar.

Repertório: espécie de vocabulário, de estoque de signos conhecidos e utilizados por um indivíduo.

Representame ou representamen: o mesmo que signo.

Retórica especulativa: o mesmo que Lógica Transuacional.

Secundidade ou Secundariedade: modo de ser daquilo que é tal como é, com respeito a um segundo, mas sem levar em consideração qualquer terceiro/forma quase-sígnica da consciência.

Semântico (nível): quando envolve relações de significado, entre signo e referente.

Semiose: processo de geração infinita de significações.

Semiótica: teoria geral dos signos/doutrina quase necessária ou formal dos signos/Lógica.

Sentido: efeito total que o signo foi calculado para produzir e que ele produz imediatamente na mente, sem qualquer reflexão prévia/interpretante imediato.

 

Sentimento (feeling): um estado de consciência flagrado em qualquer de seus momentos.

Significação: efeito produzido pelo signo sobre o intérprete em condições que permitissem ao signo exercitar seu efeito total; é o resultado interpretativo a que todo e qualquer intérprete está destinado a chegar, se o signo receber a suficiente consideração/Interpretante final.

Significado: efeito direto realmente produzido no intérprete pelo signo; é aquilo que é concretamente experimentado em cada ato de interpretação, dependendo portanto do intérprete e da condição do ato e sendo diferente de outra interpretação/interpretante dinâmico.

Signo: é um Primeiro que está em tal genuína relação como um Segundo, chamado seu Objeto, de forma a ser capaz de determinar que um Terceiro, chamado seu Interpretante, assuma a mesma relação triádica (com o Objeto) que ele, signo, mantém em relação ao mesmo objeto/uma coisa que representa outra coisa, seu objeto, para um intérprete.

Símbolo: signo que se refere ao Objeto em virtude de uma convenção, lei ou associação geral de ideias/terceiridade/nível pragmático/lei ou pensamento.

Similaridade: inferência por semelhança.

Sinsigno: é uma coisa ou evento existente, tomado como signo.

Sintático (nível): quando se refere às relações formais dos signos entre si.

Telepresença: viver além do espaço físico, em espaço virtual, através da comunicação.

Terceiridade ou Terciaridade: modo de ser daquilo que é talcomo é, ao estabelecer uma relação entre um segundo e um terceiro/aproxima um primeiro e um segundo numa síntese intelectual.

Texto: processo de signos em geral (não somente conjunto verbal), que tendem a eludir seus referentes, tornando-se referentes de si mesmos e criando um campo referencial próprio.

Transuação: mediação ou modificação da primeiridade e da secundidade pela terceir idade, tomada à parte da secundidade e da terceiridade.

Nelson Valente é jornalista, professor universitário e escritor. Pesquisador nas áreas de psicanálise, comunicação, educação e semiótica. É mestre em Comunicação e Mercado e doutor em Comunicação e Artes. O autor também é especialista em Legislação Educacional, Psicanálise,Teoria da Comunicação e Tecnologia Educacional e já publicou 16 (dezesseis) livros sobre o ex-presidente Jânio Quadros e outros sobre educação, parapsicologia, psicanálise e semiótica, no total de 68 (sessenta e oito) livros e alguns no prelo. Ex-presidente da Academia Blumenauense de Letras/ALB, Acadêmico. Membro da Sociedade dos Escritores de Blumenau/SEB.

2 resposta para "Salve Jorge – A invasão dos Signos (2ª Parte)"

  1. Gilberto
    Gilberto   05/04/2013 em 00:08

    Não deixem de conferir a continuação desta série de analises de Nelson Valente sobre a novela Salve Jorge.

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  2. Giba   05/04/2013 em 12:00

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