General José Antônio Flores da Cunha

Carlos Athanásio

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Refiro a história de um personagem, muito importante para nossa tradição: deputado federal, senador, general honorário do Exército em 1924, bacharel em direito e interventor do Estado (1930 a 1934), de pensamento rápido, valente, brigão e dotado de “tiradas” incríveis; jogador incorrigível, apreciador de corridas de cavalo.

Falo de José Antônio Flores da Cunha! Absolutamente incorrigível! Numa mão de jogo de pôquer, no Clube do Comércio, em Porto Alegre, local onde até hoje, reúne-se o Rotary Club Porto Alegre. Flores já tinha perdido bastante dinheiro para um desconhecido, que por sinal, era um nato representante da República do “Café com Leite”, tendo em conta a disputa presidencial, onde imperava um troca-troca vergastado entre Paulistas e Mineiros, que veio a se resolver com a Revolução de 30.

José Antônio Flores da Cunha

Voltando ao jogo, Flores já estava irritadíssimo. Vinha mão e voltava mão e nada de ganhar. Chegou a uma certa altura do jogo, que somente os dois estavam jogando; apostas altas da mesa. No momento de apresentarem os jogos, o Paulista virou as cartas e tinha uma sequência, e, o nosso general, virando as cartas, nada! Quando o vencedor fez menção de recolher as fichas que estavam sobre a mesa, o caudilho avisou-o:

“ – peraí seu moço, ganhei eu! Tenho um Farroupilha. E o Farroupilha ganha da sequência e perde para o full hand, aqui, no Rio Grande”.

Já, conhecendo a fama do jogador adverso e estando a sala repleta de perus (aqueles que ficam atrás dos jogadores) e todos torcedores puxa-sacos do general, ele se deu por vencido.

Fizeram uma pausa para o jantar, pois a cozinha do Clube do Comércio só fechava após a saída do interventor-governador.

Já, era alta madrugada. Após o lauto banquete, conhaque e licores bebidos (além da grande quantidade de uísque de primeira, que já haviam ingerido, durante a fase inicial do jogo), Flores, com imenso charuto em mãos, reiniciou as rodadas.

Novamente, o general começava a perder uma, após a outra, para o Paulista. Lá, pelas tantas, o general põe na mesa uma sequência e o paulista apresenta, o que? O Farroupilha (uma carta não fecha com a outra)! Quando ia abocanhar a maior aposta da noite, Flores interrompeu-o gentilmente, colocando a imensa mão dele sobre as do jogador, estando com a outra já próxima da cintura, como se procurando algo; e disse, novamente, em tom de aviso: “- não moço, o Farroupilha, só vale uma vez na noite!”.

Claro que todos que, ainda, restavam no salão de jogos caíram na gargalhada. Menos o Paulista, que por educação ou medo do general, deixara as fichas na mesa! Fim de jogo e de relato!

O que isso me fez lembrar, quando reli pela enésima vez a Obra do colega Renato Maciel de Sá, o Anedotário da Rua da Praia, volume III, p. 162, FLORES, editora da Cidade, 2009, foi o rumoroso julgamento recentemente, no Brasil e sobre o qual já teci comentários sócio-políticos sobre ele, semanas atrás.

O mundo dá voltas, gira, e alguém ainda, vai voltar a falar nos tais infringentes, lá, naquela corte, e não será surpresa, se disserem que não os cabem mais, de forma clara e cabal!

A única diferença das comparações que faço, é que o General Flores da Cunha e os salões de jogos do Clube do Comércio fazem parte do ideário e da nossa cultura Gaúcha, com lembranças boas de uma época que já se foi. Isso aconteceu como disse, lá pelos idos de 1930, quando Getúlio resolveu, também, virar a mesa na sucessão Presidencial.

A outra… bem, a outra, passará para História recente brasileira que irá avaliar futuramente, o que realmente hoje naquele julgamento, tanto no que diz respeito aos personagens centrais e quanto aos perus do jogo!

Carlos Athanasio

Sou avesso a foto, seja de lado, frente ou de costas. Já passei da idade de ver-me com cabelo aparado, gravata, ternos alinhados e camisa com golas da moda. Restaram-me as lembranças de um passado longínquo. Fica a gravura ao lado, de um medieval guerreiro, cansado das batalhas, sem cavalo e a pé, findo o combate de corpo a corpo, restou-lhe, somente a espada, símbolo inequívoco da liberdade, igualdade e fraternidade que deve mediar os relacionamentos entre os homens de boa fé. Combati o bom combate, venci a carreira e guardei a Fé. Apresento a vocês, além de mim, aquele que falará por mim nessa revista, O MEDIEVAL!

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