Dulce Pontes, Estrela Portuguesa nos Palcos do Mundo

Lino Tavares

 

No elenco de personalidades internacionais de nossa série de entrevistas, figura nesta edição a cantora portuguesa Dulce Pontes, uma das mais categorizadas intérpretes musicais de seu país, muito conhecida e aplaudida no Brasil, na América e outros continentes onde cumpre importantes roteiros de shows, alcançando grande sucesso.

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Dulce Pontes

Primeiros Passos

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Dulce José Silva Pontes, conhecida artisticamente como Dulce Pontes, nasceu em Montijo, proximidades de Lisboa, no dia 8 de abril de 1969, trazendo da infância, como uma tradição de família,  sua  inspiração pelo  fado, sendo motivada nesse sentido por seu tio Carlos Pontes, grande apreciador desse gênero e de corridas de touros.  Sua cultura musical começou cedo, quando aos setes anos ingressou no Conservatório Nacional de Música, em Lisboa, direcionando seus estudos para as aulas de piano. Eclética na sua vocação artística, dedicou-se, na adolescência, ao aprendizado da dança contemporânea, adquirindo conhecimentos que a permitiram ministrar aulas dessa arte na Academia de Anabela Gameiro, sua primeira professora.

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O Início

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Começou sua trajetória profissional, conquistando em 1988, entre várias candidatas,  o direito de substituir a atriz principal no elenco do musical “Enfim Sós”. Pouco tempo depois, começou a conquistar importantes espaços, revelando seu talento na televisão e gravando spots publicitários, até pisar no palco do famoso Cassino Estoril, onde conquistou o apreço de produtores musicais e amantes da boa música, através de interpretações apaixonadas do fado, com um desempenho que a todos encantava pelo elevado nível de sua expressão vocal e corporal. Foi no programa de televisão “Regresso Passado” que a jovem cantora viveu o início de sua consagração popular, com apresentações que fizeram crescer de forma considerável os índices de audiência da emissora.

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Primeira Gravação

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Dulce Pontes brilhou no Festival da Eurovisão, em 1991, na cidade de Roma, obtendo excelente classificação, interpretando o tema “Lusitana Paixão”. Ingressa no mercado fonográfico, já no ano seguinte, com a edição do primeiro disco “Lusitana”, e, em 1993, com a gravação do disco “Lágrimas”. Em razão da presença  marcante do fado no limiar de sua carreira, a nova cantora que despontava chegou a ser considerada, entre algumas segmentos de apreciadores musicais, como uma provável sucessora da consagrada fadista Amália Rodrigues, falecida no ano de 1999. Mas ela mostrou que tinha sua “luz própria” nos meios musicais portugueses, acrescentando outras opções de gêneros em seu repertório, embora continuando a cantar fado como fiel intérprete lusitana. Entre essas incluem-se músicas de raiz africana, árabe e berbere, que suscitaram no novo disco o resultado das primeiras pesquisas no cenário da música popular portuguesa.  Antes da primeira gravação do CD com o famoso Maestro italiano Ennio Morricone, que seria o grande salto na carreira, Dulce lança os discos “A Brisa do Coração”, em 1995, “Caminhos”, em 1996, e “O Primeiro Canto”, em 1999.

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Viagens

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Representou Portugal, em 1997, no concerto “Yes for Europe”, com a cobertura de 17 canais de televisão, realizado no World Food Day (Dia Mundial da Alimentação), destacando-se ainda no 52º aniversário das Nações Unidas, em Nova Iorque, no Concerto da Amnistia Internacional em Madrid, e no 1º Festival Internacional de la Solidaridad de Barcelona. A música marcante de sua carreira, como ela própria ressalta numa das respostas desta entrevista, é a consagrada “Canção do Mar”, letra de Frederico de Brito e música de Ferrer Trindade, sucesso de Amália Rodrigues, que a interpretou em 1955, sob o título “Solidão” no filme “Os Amantes do Tejo”. A interpretação dessa melodia por Dulce Pontes tornou-se tema principal da banda sonora da versão internacional da novela brasileira “As Pupilas do Senhor Reitor”, em 1994, bem como do filme “Primal Fear”, de Gregory Hoblit, em 1996, contribuindo de forma decisiva para alargar os horizontes da cantora portuguesa, tornando-a conhecida e aplaudida internacionalmente.

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Atualidade Artística

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Atualmente, Dulce Pontes marca presença em países dos hemisférios Norte e Sul, levando sua mensagem musical qualificada a pessoas de todas as faixas etárias, sendo considerada pelos críticos musicais uma das cantoras mais apreciadas no panorama internacional, realizando por onde passa espetáculos inesquecíveis, sempre atraindo grandes contingentes de público, que têm representado fator de crescimento de suas legiões de fãs, espectadores  e consumidores de seus álbuns lançados em discos e vídeos. De posse desse currículo pleno de êxitos e realizações, a cantoras conquistou a amizade e o apreço de colegas famosos dos quais recebe frequentes convites para parcerias e participações em concertos e gravações. Entre eles, figuram o cantor italiano Andrea Bocelli, o tenor espanhol José Carreras, a intérprete de Cabo Verde Cesária Évora, o gaiteiro galego Carlos Nuñez, os irlandeses The Chieftains a convite de Paddy Moleney,  bem como os cantores brasileiros Caetano Veloso, Daniela Mercury, Simone e Marisa Monte.

Simples, comunicativa e muito atenciosa com seus admiradores e no trato com a mídia, a extraordinária cantora da Terra de Camões concedeu-nos a honra dessa entrevista, onde revela aspectos significativos de sua vida pessoal e artística, como se vê a seguir.

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Dulce Pontes Responde

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 Em que fase da vida despertou em você a vocação de ser cantora ?
R:Segundo os meus Pais foi aos 4 anos. Na minha infância amava escutar todo o tipo de música, tinha paixão pelo piano e pela dança. Meu Tio Carlos cantava Fado, eram habituais os encontros  familiares e com os Pescadores de Sesimbra, encontros esses onde se cantava. Lembro-me bem de como cantava bem o meu Pai, com uma colocação de Tenor natural. Meu Avô António tocava concertina, meu Tio Chico (que já estava a viver no Brasil quando eu nasci) tinha uma voz linda, sempre enviavam fitas com canções, cartas faladas e cantadas.
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Onde você viveu a sua primeira experiência no meio artístico musical  ?
R: Foi em 1988 depois de ter sido escolhida para integrar o elenco de uma Comédia Musical, em Lisboa no Teatro Maria Matos.
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Além do fado, que corre nas veias do povo português, que outros gêneros musicais lhe encantavam na infância e na adolescência ?
R: Sempre gostei de Folclore e Portugal tem uma variedade impressionante. A música clássica sempre presente também. A Música Popular Brasileira, recordo que o primeiro tema que cantei em público numa audição de piano foi “Fascinação” de Elis Regina, para mim uma das mais completas interpretes de sempre, uma referência muito importante. Depois grupos como The clash, Pink Floyd, Queen, The Pogues, Kate Bush, Peter Gabriel…
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Seus pais a incentivaram na opção pela carreira musical, ou tinham outros planos em relação ao seu futuro ?
R: Quando quis seguir a dança na minha adolescência, ficaram desapontados, eu já tinha completado o 4º ano de piano no Conservatório de Lisboa,  mas a dança me chamava mais forte. Depois pelo acaso do anuncio de jornal que dizia “Procura-se jovem que goste de cantar, dançar e representar” ao qual eu respondi e correspondia ao casting para integrar a Companhia de Teatro, sempre me deram todo o apoio e aceitaram inclusive que eu deixar os estudos de parte.
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Você começou primeiro as aulas de canto ou as de piano ?
R: O piano da minha paixão. Só comecei com aulas de canto quando tinha 17anos com a professora Maria do Rosário Coelho.
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Dentre as diversas músicas que já cantou, qual delas marcou mais em sua carreira ? 
R: Canção do Mar sem dúvida.
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Mesmo sendo uma cantora consagrada, sente algum tipo de nervosismo ao pisar no palco ?
R: Ainda estou muito nova para ser consagrada (que palavra forte!) tenho sempre pânico e cada vez mais intenso. Depois é como saltar no infinito: ou se cai ou se voa.
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Quais foram suas participações mais importantes e prêmios mais significativos conquistados na carreira ?
R: Todo o caminho é importante, tanta gente que nos ensina, inclusive pessoas que nada têm a ver com a música. Aprendi muito com o Maestro da minha alma Ennio Morricone, amei cantar com Caetano Veloso e com Simone, com Carlos Nuñez, George Dalaras, Kepa Junkera, Leonardo Amuedo, Wayne Shorter, Trilok Gurtu, Maria João, caramba tanta gente boa que me vai saber mal não haver escrito todos os nomes. Os prêmios mais importantes: José Afonso, Premio Tenco, Premio Amigo e recentemente o Premio Maria Carta e o maior de todos os prêmios que é o carinho e atenção de um público fiel que não depende de discos novos nem campanhas de marketing e sempre me acompanha e dá sentido ao caminho.
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A música portuguesa atual caracteriza-se por um estilo próprio ou é influenciada por gêneros internacionais ? 
R:  Agora o fado está na moda, com tudo o que as modas têm de bom e mau. Mas existe todo o tipo de gêneros musicais dentro da música portuguesa.
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Acredita que o elevado padrão musical da segunda metade do século passado decaiu ou se mantém estável na atualidade ?
R:  Decaiu sim, com as devidas exceções. Basta observarmos que música é “bombardeada” pelos meios de comunicação, tipo “fast-food”...
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Que você acha dessa mistura de religião e manifestação artística, surgida a partir da popularização da música gospel ?
R: A música sempre esteve associada à religião, em todos os tempos. Como é a linguagem mais imediata no que se refere à comunicação com a sensibilidade das pessoas, naturalmente que é utilizada. Pena é continuar a existir tanta guerra e discórdia com base na religião, certamente contraditório no que diz respeito aos ensinamentos de Jesus.
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Tal como acontece no Brasil, existe limitação de espaço em Portugal, dificultado a trajetória de quem, vindo de fora,  se dispõe a vencer na arte musical ?
 Existe, pois sobretudo se tem identidade própria e independência.
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Considera satisfatório o apoio dispensado pelo governo português ao desenvolvimento da arte musical  ?  
R:  Prefiro não comentar.
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“Lisboa Antiga”, “Uma casa Portuguesa”, “Foi Deus”, “Coimbra”, “Nem às paredes confesso” são clássicos portugueses que se consagraram no Brasil. Você citaria outros desse nível, que por uma razão qualquer não se tornaram conhecidos entre os brasileiros ?
R: São clássicos graças à enorme Amália Rodrigues, ela sim a grande inovadora do fado, capaz de cantar noutros idiomas e sempre maravilhosa. Penso que ainda se recordam da Canção do Mar, que Amália também gravou com o poema “Solidão”.  
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Você diria que Amália Rodrigues representa para Portugal, assim como Carmem Miranda (também nascida em Portugal) representa para o Brasil, a maior expressão musical feminina de todos os tempos ?
R: Tratam-se de grandes Maestras: Amália Rodrigues, Elis Regina, Carmen Miranda, Edith Piaff, que percorreram o Mundo e continuarão para sempre presentes.
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Além do samba, que outros gêneros musicais brasileiros são apreciados  em Portugal ?
R: Musica Popular Brasileira, os grandes clássicos como Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano, Maria Bethânia, Simone, Alcione, Fafá de Belém e também da nova geração como Maria Rita,e  Marisa Monte,  por exemplo.
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Que artista brasileiro do meio musical desfruta hoje de maior cartaz em Portugal  ?
R: Penso que sem dúvida nenhuma Caetano Veloso.
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Quando faz shows no Brasil você se sente tão à vontade como se estivesse cantando em Portugal ?
R: Eu só me sinto à vontade depois do 2º, 3º tema, seja onde for.
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Em que países você tem se apresentado com maior frequência,  levando a outros povos o melhor da música portuguesa ? 
R: Espanha, Itália, Grécia, Romênia, Hungria e Holanda.
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Do ponto de vista cultural, Portugal mantém maior intercâmbio com a vizinha Espanha ou com os  povos de Língua Portuguesa ?
R:  No meu caso pessoal, sempre tem sido Espanha.
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“Bate bola” com Dulce Pontes

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Eterna recordação ?  O meu pardal.
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Momento inesquecível ?  A expressão do Maestro Ennio Morricone quando gravamos “A
Rose among thorns” do filme ” A Missão” para o álbum Focus.
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Gostaria de esquecer ?  O Tratado de Lisboa.
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Maior sonho realizado ? 
Ser mãe.
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Número de sorte ?  Não tenho,  mas gosto do 13
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Prato preferido ?   Purê de batata (com peixe ou carne, não importa)
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Principal Hobby ?  Leitura
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Cantor internacional ? Peter Gabriel
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Projetos na carreira ? Um de cada vez, para já terminar o “Peregrinação”
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Um (a) amigo (a) de infância ? A Catarininha.
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Viagem marcante ? Japão, Tóquio.
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Surpresa agradável ?  Eram tantas! que sorte a minha!
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Superstição ?  Nenhuma
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Cor preferida ?  Branco, vermelho, depende do dia
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Clube de futebol ?  Não tenho
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Cantora internacional ? Elis Regina
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Ator ou atriz Português (a) ? Graça Lobo
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Personalidade nacional ? Rentes de Carvalho (escritor)
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Líder internacional ? Dalai Lama
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Considerações Finais

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      Meu querido Lino, como não me ocorre nada e sobre o fato de tudo ser efêmero talvez esta frase, parte de um poeminha meu: “…por isso não sou ninguém: só uma pequena aragem que sopra tudo o que tem e que está só de passagem…”

 

Vídeos com interpretações de Dulce Pontes

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CANÇÃO DO MAR (NEATZA CU RAZVAN SI DANI)

SETE MARAVILHAS PORTUGUESAS

LUSITANA PAIXÃO

MÃE PRETA

LA BOHÈME

FOI DEUS (voz)

PARCERIAS

 

– Com Andrea Bocelli  – O Mare E Tu

– Com Estrella Morente – Canção do Mar

– Com José Carreras – One Word

– Com Ennio Morricone – (La Luz Prodigiosa)

– Com Simone – 1 –  Ilha do meu fado

– Com Simone – 1 -Canta Brasil

– Com Daniela Mercury – Milagre do povo

– Com Caetano Veloso – Estranha Forma de vida

SITE MOMENTOS (Página com Gravações em CD)

 

CONTATOS COM A CANTORA

 

Para acessar o Facebook de Dulce Pontes, clique aqui

 

E-MAIL – Música

ondeia@dulcepontes.net

ondeiamusica@gmail.com

 

 

 

Lino Tavares

Lino Tavares é jornalista diplomado, colunista na mídia gaúcha e catarinense, integrante da equipe de comentaristas do Portal Terceiro Tempo da Rede Bandeirantes de Televisão, além de poeta e compositor

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