Avenida da “Legalidade e da Demagogia”

Lino Tavares

É próprio dos incongruentes usufruírem dos benefícios gerados pelos outros e se voltarem contra àqueles que os geraram, à guisa de interesses mesquinhos. Foi revelando esse perfil que vereadores cujos nomes nem vale a pena citar conseguiram aprovar na Câmara Municipal de Porto Alegre o projeto revanchista e sem nenhum sentido prático que mudou o nome da Avenida Castelo Branco para Avenida da “Legalidade e da Democracia”. Primeiramente um reparo sobre essa expressão. Que “Legalidade”, se a reação de Brizola naquele ano turbulento da Renúncia de Jânio Quadros foi feita totalmente à margem dos pressupostos legais, tendo como respaldo os chamados “Grupos dos Onze”, que nada mais eram do que milícias armadas e recrutadas sem o aval de qualquer órgão de segurança, até porque isso não seria possível, haja vista a inexistência de dispositivos legais para essa tomada de posição ? Mas deixa isso pra lá, cada qual acredita naquilo que quer.

Avenida Castelo Branco
Avenida Castelo Branco

O que causa espanto nessa mudança inócua no nome da principal via de acesso à capital gaúcha é o fato de saber que a referida avenida foi construída exatamente no período de governo que as “viúvas de Moscou” classificam de “ditadura militar”, principal razão alegada para essa troca de nome que chega às raias da incongruência. Esquecem que, se a intenção era retirar daquele local público o nome de um suposto “ditador”, a Avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus, também teria que mudar de nome, haja vista que o ex-presidente natural de São Borja foi o único ditador de fato que este país teve, bem ao contrário do Presidente Castelo Branco, que assumiu o poder com o prazo do mandato limitado, só não tendo passado a faixa presidencial a seu sucessor, por ter morrido antes num acidente aéreo.
A menos que queiram chamar a era truculenta do “Estado Novo” de democracia, da mesma forma como classificam como “ditadura” o Regime de exceção pró garantia da soberania nacional, ignorando de forma deliberada que nos seus vinte anos de existência sempre houve alternância no poder central, Congresso, Assembleias Legislativas, Câmara Municipais e Partido de oposição funcionando, com direito a derrotar nas urnas o partido do governo. Essas coisas existiam na “Ditadura Vargas” ?
Desde que a mídia anunciou esse “rebatismo demagógico” da Avenida Castelo Branco, sempre me pronunciei a respeito disso dizendo que esse nome “Legalidade e Democracia” pegaria tanto quanto se mudassem o nome do Grêmio para “Centro Acadêmico” Foot-Ball Porto Alegrense e o do Internacional para Sport Club “Universal”. Para ter certeza acerca do que imaginava, dei-me ao trabalho de fazer uma pesquisa velada com duração de duas horas, perguntando a motoristas, no parque de estacionamentos da estação rodoviária, que avenida eu deveria pegar para ter acesso à ponte do Guaíba, com destino ao sul do Estado. Repeti a pergunta 25 vezes, tendo 24 respostas me informando que deveria pegar a Avenida “Castelo Branco”, contra apenas uma me dizendo que eu deveria me deslocar pela avenida da “Legalidade e Demagogia”, numa clara evidência de que o informante estava ironizando acerca daquele logradouro cuja troca de nome considera certamente uma “piada legal”.

Lino Tavares

Lino Tavares é jornalista diplomado, colunista na mídia gaúcha e catarinense, integrante da equipe de comentaristas do Portal Terceiro Tempo da Rede Bandeirantes de Televisão, além de poeta e compositor

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