Filosofia Reversa

Ivani Medina

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O temo filosofia se define etimologicamente no dicionário Houaiss como ‘amor da ciência, do saber, do conhecimento’, de philos ‘amigo, amante’ e sophia ‘conhecimento, saber’. Enfim, amor pela sabedoria ou conhecimento. O termo reverso, no mesmo dicionário, significa algo ‘que está ou parece estar em posição oposta à normal’. Como o normal na filosofia é a busca do conhecimento, quando uma filosofia se coloca em posição oposta à sua proposição original, se servindo das técnicas filosóficas para obstá-lo, torna-se uma filosofia reversa. Inventei isso apenas para ilustrar o meu pensamento.

O cristianismo é definido por alguns como uma filosofia popular ou feita para o povo. Algo do tipo “não conte às crianças”. Atualmente, coisa dos pequenos que gostam de parecer grandes diante da multidão. O pior é que há quem acredite sinceramente no cristianismo como algo benévolo cujos defeitos e efeitos são meramente acidentais. Por causa dessa filosofia religiosa reversa e milenar que passou a controlar tudo inclusive a história (é o que mais me incomoda), o surgimento do cristianismo é para a grande maioria dos seus adeptos uma parte vital da sua autobiografia intocável. Alguns acreditam que quem ousar mudar uma única das suas linhas terá que se ver com a ira de Deus.

 A filosofia é a busca do conhecimento, quando uma filosofia se coloca em posição oposta à sua proposição original, torna-se uma filosofia reversa
Filosofia Reversa

Como até hoje tentam calar com argumentos filosóficos e teológicos (alegando razões humanitárias no cuidado com “as crianças”) quem comente a respeito do cerceamento da história, que para eles deve permanecer como está, mais uma vez recorro ao trombone. Há muito a história perdeu o direito a palavra. Toda vez que ela levantava o dedinho, a teologia e a filosofia reversa chegavam nela dizendo: ? O que pensa que vai dizer? Primeiro conversaremos a respeito. E assim seguiu-se até as primeiras horas da manhã do século XXI, limitada por um interesse que nunca foi dela, percebeu este modesto colunista e admirador o erro fatal: trazer Jesus Cristo do tempo mítico para o tempo histórico, fazendo dele o Jesus de Nazaré.  Uma inovação que vai custar caro porque o tempo histórico tem exigências incontornáveis.

A Judeia e a Galiléia eram produtoras de artigos procurados também para as boas mesas: tâmaras, frutas secas, romãs, maçãs, mel, azeitonas, azeite, peixe salgado e defumado, grãos, o conhecido vinho da Judéia etc. Lã, fiação e produtos acabados, como cobertores, mantas, tapetes, artesanato de luxo e perfumes encontravam igualmente boa aceitação em outros mercados além do mercado interno.

No constante vai e vem dos mercadores as notícias faziam o mesmo percurso, indo e vindo por intermédio daqueles que passavam por diversas vilas antes do destino final. Comerciantes tinham necessidade profissional de andarem bem informados, pois qualquer desatenção poderia ser perigosa para a segurança deles e causar-lhes grandes prejuízos. Assim era o dia todo, o tempo todo, o ano todo porque o dinheiro não dorme.

“E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoniados, os lunáticos e os paralíticos, e ele os curava”.  (Mt 4, 24)

“E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão.” (Mt 4, 25)

Houvesse existido o Jesus histórico que de alguma forma (a menor que fosse) se aproximasse ao mito, junto com as mercadorias exportadas daquela região chegariam também às mesas romanas notícias a respeito deste personagem singular. Um bom assunto na hora da degustação. É certo que, pelo menos, algum escritor de Roma teria se interessado pela sua história. Lembremos de que naquela cidade, no primeiro século, havia uma avidez por leitura da parte da nova classe média, e por assuntos que despertassem a curiosidade dela da parte dos escritores. Plínio o Velho (23-79) foi um dos inúmeros a aproveitar a boa maré e escreveu sua História Natural, publicada em 77. Sobre Jesus e o cristianismo alegadamente existente na época, nem uma palavrinha da parte deles.

“Plínio era um leitor ávido que hauria com abundância em outras fontes para obter as informações que desejava registrar. Ele mesmo admite que o fazia e menciona cerca de cem fontes das quais extraiu os dados compilados no seu livro. Para o livro V, onde aparece o parágrafo sobre os essênios, Plínio reconhece ter usado cinquenta e nove fontes.” (VANDERKAM, 1995, p. 80)

Não é possível que um assunto desse não caísse na boca do povo, quando os essênios eram conhecidos. Pelas declarações de Plínio, está claro que havia um mercado editorial promissor no primeiro século. Não fosse a história de Jesus de Nazaré, ninguém engoliria as usuais desculpas por ela ter sido ignorada nos meios rural e urbano por um século inteiro.

A especulação que hoje se faz na busca do Jesus histórico pode igualmente sugerir o que teriam feito os gregos na construção deste personagem. Bem informados que teriam sido sobre os galileus e a situação difícil deles (pelos seus patrícios de Séforis e Tiberíades) as causas econômicas, políticas e sociais já estavam delineadas. Adversários dos romanos e dos judeus, essa gente ignorante e feroz defensora dos seus costumes era uma massa de manobra perfeita para ser usada por terceiros. Como os indo-europeus gregos, por exemplo, que não prezavam latinos nem judeus.

“Como os gregos de Alexandria, os helenos da Palestina eram notórios por seu anti-semitismo: foram de língua grega de Jabné e Achkelon que levaram a Calígula conhecimento de suas medidas antijudaicas. Ingenuamente, Roma insistiu em retirar seus procuradores da Judéia das áreas gentias de fala grega – o último, e o mais insensível deles, Géssio Floro, veio da Ásia Menor grega.” (JOHNSON, 1989, p.140)

Convertidos pelas espadas ashmoneanas ao judaísmo, apenas por conveniência política e estratégica, os galileus nunca foram considerados judeus pelos próprios, senão pelos de fora que desconheciam o judaísmo internamente. Em 78 da era antiga, os ashmoneanos conquistaram e absorveram Samaria, Edom, Moab, Galiléia, Iduméia, Transjordânia, Gadara, Pela, Gerasa, Ráfia e Gaza. O judaísmo e a circuncisão foi um processo que os descendentes dos ashmoneanos impuseram aos seus novos súditos pela força da espada.  (DURANT, 1971, p. 415) “A submissão asmonéia dos galileus e dos idumeus ao Estado-Templo de Jerusalém e às “leis dos judeus” não significava que eles estavam integrados no ethnos (nação/povo) judaico.” (HORSLEY, 2000, p.33). “[…]. Geralmente, porém, Josefo faz distinções claras entre os galileus e idumeus e os judeus como ethnoi ou povos distintos.” (HORSLEY, 2000, p. 33). Os judeus da Judéia desprezavam os galileus como sendo gente atrasada, como os galileus desprezavam os da Judéia como escravos manietados na teia da Lei. E havia também o perpétuo atrito entre judeus e samaritanos. (DURANT, 1971. vol. III, p.415). A ideia que se criou de uma suposta opressão romana aos judeus é equivocada. Eram os galileus que eram oprimidos pelos romanos (impostos sobre a terra, produção, utilização de pontes etc.) e pelos judeus (impostos do templo). Judeus e romanos se davam bem e estavam bem, os galileus é que se ferravam.

Portanto, na realidade, verifica-se uma distorção intencional na informação quando se diz que os zelotes (galileus revoltados e desejosos da guerra) constituíam um partido político judeu. O significado deste termo é “imitador” e não “aquele que tem zelo por Deus”. Como não havia sinagogas na Galiléia pode-se inferir pela falta de assistência cultural e orientação religiosa que fazia dos galileus imitadores de um ritual e observâncias cujas causas desconheciam.

“Não existiam sinagogas na Galiléia nos séculos I e II. Surgem só na metade do século III. (HORSLEY, 2000, p.121) […].Os rabis, aparentemente descendentes dos primitivos escribas e sábios, mudaram-se da Judéia para a Galiléia na onda da segunda grande devastação causada pelos romanos para reprimir a revolta popular generalizada contra o domínio de Roma […]. Eles finalmente se concentraram nas cidades da Galiléia que mais haviam romanizado/helenizado no decurso do século II.” (HORSLEY, 2000, p.158)

E, no templo, em Jerusalém, somente lhes era permitido o pátio dos gentios. Eram tratados como desprezíveis contribuintes estrangeiros e não como iguais. Eram odiados e odiavam os fariseus (FROMM, p. 28), razão do ataque visceral a estes nos evangelhos, especialmente no de Mateus. É o ódio galileu que transpira nos evangelhos, e não ódio absurdo de judeu contra judeu, como se fez crer, que comprometeu a segurança e o bem-estar do povo judeu condenando-o a um ódio eterno. É claro que judeu algum participou da redação da literatura cristã primitiva. Gregos assistidos por galileus mais instruídos no judaísmo, de posse da Septuaginta e de Antiguidades judaicas, de Josefo, fizeram isso. O fictício Paulo surgiu para tapar esse Sol com a peneira, traduzindo alegoricamente o esforço grego no processo de convencimento e resgate dos prosélitos.

Motivos para mágoas e ressentimentos sobravam aos galileus. Fica claro que galileu e judeu nunca foram sinônimos e ninguém disse isso abertamente porque não interessava. Até hoje no meio judaico “galileu” é sinônimo de bandido por causa das atrocidades que eles cometeram contra os judeus da Judéia e de Jerusalém, nos episódios da guerra de 66-70/3, quando saquearam casas, estupraram mulheres, assassinaram indistintamente seus habitantes e incendiaram os paióis de provisões da cidade.

Ao que parece, os pais da história, plantaram o romance do Jesus histórico antes daquela guerra porque Jerusalém foi destruída e incendiada e o templo (símbolo maior do judaísmo) eliminado juntamente com as “provas” de tal “existência”. Ficaria o dito pelo não dito. Fizeram então, os inimigos do judaísmo, do personagem galileu Jesus de Nazaré um messias judeu e pretenso “reformador” do judaísmo, religião na qual jamais seria admitido como membro de fato e de direito.

Os gregos estavam de olho na posse do Antigo Testamento para conter o proselitismo e reverter a influência judaica no meio pagão. O messianismo judaico, afirmado pelos cristãos e negado pelos judeus, era na verdade o messianismo desastroso dos simples galileus. A resistência camponesa deles assumiu o teológico messianismo libertador dos seus dominadores judeus, tomando-o ao pé da letra (o que lhes deveria facilitar a organização e o fomento da esperança na continuidade da luta). Os líderes desses movimentos eram chamados por eles de “rei” (HORSLEY, p. 37). Daí a imagem literária “Jesus, rei dos judeus”. Como solução, isto é, uma ponte constituída por um personagem Galileu entre o mundo grego e o judeu, para a ignorância pagã, estava de bom tamanho. Tendo em vista a sinterização de um antídoto para a definitiva submissão do judaísmo, Jesus de Nazaré passaria a ser também um problema difícil de resolver, como desarmar uma bomba relógio inexpugnavelmente blindada.

“Ouve-se falar de Nazaré, pela primeira vez, nas fontes que datam do século III. Ora, nos evangelhos Nazaré é chamada de ‘cidade’. (Mateus. II 33: Lucas, I, 26; II, 39, etc.) Não parece, portanto, que Nazaré tenha sido uma cidadezinha perdida que pudesse ser ignorada por todos os historiadores da Judéia. […] Os autores dos evangelhos não conheciam a Judéia senão pelos textos do Antigo Testamento, e achando, visivelmente, que ‘nazareno’ significava originário de Nazaré, deram esse nome ao lugar do nascimento do Cristo, sem sequer suspeitar que semelhante localidade ou vila não existia na Judéia.” (LENTSMAN, 1963, p. 177)

Diz-se que os evangelhos canônicos são mencionados pela primeira vez pelo grego Pápias, apologista cristão da primeira metade do século II. O historiador da igreja, o grego Eusébio, no século IV, disse que Pápias criticava os evangelhos de Marcos e, em parte, o de Mateus (LENTSMAN, p. 180) o que pressupõe a existência desses evangelhos antes do século III. No entanto, as informações de Eusébio merecem confiança relativa e as evidencias não corroboram com a informação, no entanto, uma certeza que supera nossas dúvidas nós temos: ora, quem conta a história do cristianismo são os gregos.

Estudiosos especialistas garantem que não existiu original em aramaico da literatura cristã primitiva, língua das vilas e cidades judias interioranas. O grego era falado nas cidades mediterrâneas. Os evangelhos (tipo de literatura comemorativa grega, comemoravam o quê?) e especialmente Atos dos Apóstolos – que empresta a sensação mais elaborada de realidade à pretensão histórica – são literaturas religiosas que têm alimentado por séculos as discussões teológicas e a imaginação popular. Mark Twain disse com muita propriedade que a ficção precisa ser mais convincente do que a realidade. “O documento principal de que dispomos para conhecer as primeiras décadas da Igreja é constituído pelos Atos dos Apóstolos […]. Quem escreve é grego e escreveu para gregos […].” (DANIÉLOU; MARROU, 1966, p. 27)

A evidente origem pagã do cristianismo se vê nos elementos da sua própria construção literária. Não era o deus de Israel que tinha o hábito de sair emprenhando mulheres por aí. Era Zeus Pai, o Todo Poderoso. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Jesus de Nazaré como filho do deus de Israel é o maior absurdo sincrético e blasfemo da história da religião. Ainda que quisessem, nem os convertidos galileus forjariam isso por conta própria, por absoluta falta de condições. O cristianismo veio da Ásia Menor sob a desculpa de que o apóstolo João teria se instalado lá. “Um pescador da Galiléia poderia ter escrito a prosa elegante, sucinta e filosoficamente sofisticada deste evangelho [João]?” (PAGELS, 2004, p.68). Até mesmo entre os historiadores cristãos há certo escrúpulo com essas histórias burlescas.

Para a história secular independente não há um único judeu metido nisso. Não é admissível que a declarada transição do judaísmo para o mundo grego, além de tudo, não tenha deixado, ao menos, nomes que pudessem ser explorados nesse vínculo supostamente existente entre o cristianismo que conhecemos e o seu afirmado passado. São inúmeras as evidencias que tal vínculo não existiu para quem quer percebê-las, evidentemente. Como é difícil admitir que durante tanto tempo tanta gente fosse enganada com a própria cumplicidade. Ninguém pode ser enganado por tanto tempo sem o próprio consentimento.

[…] Nunca ocorreria às suas cabeças fabricar mentiras tão colossais e eles não podem acreditar que outros possam ter a imprudência de distorcer a verdade tão infamemente. Mesmo que os fatos que provem que tal foi o que ocorreu possam ser apresentados claramente às suas mentes, eles, mesmo assim, duvidarão, hesitarão e continuarão pensando que deve haver uma outra explicação.” (Adolf Hitler, Mein Kampf, vol I, ch X)

Agora, mais desconfortável ainda é a percepção dos dados da caixa preta da história. Quantos corações partidos e interesses poderosos contrariados com a perda dessa confiança. Aos judeus sionistas, certamente, isso não interessa. A não ser que o Ocidente aceite a ascendência espiritual judaica incondicionalmente. Do contrário, preferem que tudo fique como está. O Vaticano e as igrejas em geral, especialmente aqueles que fizeram fortunas se aproveitando dos bons sentimentos alheios, nem se fala. Sabem todos que só podem contar com a resistência do crente a admitir-se iludido e com a própria habilidade na manipulação da filosofia reversa, para conservar os crentes como estão e o mundo como está.

Referencias

DANIÉLOU, Jean; MARROU, Henri. Nova história da Igreja: dos primórdios a São Gregório Magno. Petrópolis: Vozes, 1966.

DURANT, Will. César e Cristo. Rio de Janeiro: Record, 1971.

FROMM, Erich. O dogma de Cristo. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

HORSLEY, Richard A. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia. São Paulo: Paulus,  2000.

JOHNSON, Paul. História dos judeus. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

LENTSMAN, Jacó Abramovitch. A origem do cristianismo. São Paulo: Fulgor, 1963.

VANDERKAM, James C. Os manuscritos do Mar Morto hoje. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

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Ivani de Araujo Medina

Ivani de Araujo Medina é um Homem com a percepção do descompasso existente entre a história e o favorecimento ideológico ao cristianismo

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