Certa vez em sala de aula

Lino Tavares

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Certa vez, na faculdade de jornalismo, eu questionei meu professor de técnica de redação acerca da tese defendida por ele de que o bom comunicador é aquele que procura falar a linguagem das camadas menos cultas da população. Era uma época em que a gíria ganhava espaço na música, nos textos de livros e jornais e, de certo modo, até nas escolas através dos professores alinhados mais à esquerda, que faziam proselitismo em sala de aula contra o Governo dos Militares, que se tornara uma barreira intransponível  contra os projetos de comunizar o Brasil, defendidos pelos lacaios tupiniquins de Moscou.

   Na discussão com o mestre, argumentei que o idioma que herdamos do povo luso é um dos mais completos do mundo e por isso deveria ser repassado na íntegra, de todas as formas possíveis, aos que pouco conhecem seu vasto vocabulário e suas complexas mas eficientes regras ortográficas e gramaticais. Observei então que não seria deixando de empregar  o Português na plenitude que iríamos consolidá-lo com nossa efetiva língua pátria.
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    Quis dizer, em síntese, que não éramos nós os comunicadores que deveríamos aderir à linguagem coloquial das camadas menos instruídas e sim elas é que deveriam se familiarizar com o vernáculo oficial do Brasil. O que não poderíamos e não deveríamos, observei, era deixar de grifar com entre-aspas as expressões populares, sempre que fosse preciso utiliza-las, para que fossem entendidas como exceção na forma de comunicar e não como elemento integrante do padrão linguístico oficial da nacionalidade. Afinal, concluí, não é falando errado que vamos ensinar nossos ouvintes a falarem corretamente. Depois desse debate, o bom e saudoso mestre declinou: na verdade você tem uma boa dose de razão nessa forma de raciocínio, por isso vou propor com os meus pares do corpo docente incluir sua teoria no currículo da Faculdade.
Lino Tavares

Lino Tavares é jornalista diplomado, colunista na mídia gaúcha e catarinense, integrante da equipe de comentaristas do Portal Terceiro Tempo da Rede Bandeirantes de Televisão, além de poeta e compositor

Uma resposta para "Certa vez em sala de aula"

  1. Gilberto Vieira de Sousa
    Gilberto Vieira de Sousa   03/07/2018 em 20:39

    Lembro que quando eu assistia ao programa Record em Notícias, o ancora do jornal, Hélio Ansaldo, fazia com frequência citações em latim e citações de trechos de grandes clássicos da literatura, utilizava termos da língua culta e formulava frases com termos hoje conhecidos apenas nos meios acadêmicos. Eu com frequência recorria a dicionários e aos poucos fui me familiarizando com os termos, e em determinadas situações cheguei até a utilizar alguns deles. Fui crescendo meu vocabulário com o contato diário da equipe da bancada deste jornal. Além de Hélio Ansaldo, também participavam Arnaldo Faria de Sá, José Luis Menegatti, Murilo Antunes Alves, João Mellão Neto e Maurício Loureiro Gama, José Serra, Maria Lydia Flândoli, Wilson Fittipaldi.
    Lembro também de ter sido neste programa que eu fiquei sabendo da existência do jurista e filósofo Clóvis Beviláqua e de seu trabalho, pois era comum ser citado assim como também eram comuns as citações a Epicuro de Samos, Santo Agostinho, René Descartes, Platão, Sócrates, Aristóteles.
    Ou seja, acompanhar os debates cultos destas pessoas me despertou a curiosidade, em um momento que eu estava em minha adolescência, fase ótima para ter este tipo de curiosidade alimentada.
    A cultura brasileira de tentar nivelar tudo por baixo é péssima para toda a sociedade, pois gera uma banalização da pobreza intelectual e da cultura. Hoje alguém que gosta de estudar é literalmente hostilizado, enquanto que os mais vagabundos são reverenciados.
    Fui em 2014 dar uma palestra para alunos de jornalismo em uma das unidades da Universidade Paulista, UNIP, e os alunos de JORNALISMO, não sabiam qual era o plural de degrau, não sabiam me dar um exemplo de uma frase com sujeito oculto, só para se ter uma ideia do preparo dos alunos que passaram em um vestibular e se aglomeravam para tentar entender o que os professores tentavam ensinar.
    Lino, mais uma vez, você foi certeiro ao citar a necessidade que temos de subir o nível para tentar puxar para cima tantos quanto for possível.

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