Um Adeus ao "Charles Chaplin" da MPB" - Gibanet.com

Lino Tavares

 

Assim não vale. Enquanto a Europa leva nossos craques para o lado de lá do Atlântico, a morte sorrateira carrega os nossos ícones dos meios artísticos para aquele Plano desconhecido que sequer imaginamos como é e onde fica. Agora quem “se mandou para lá” foi o mestre da alegria nos palcos, Jair Rodrigues, que que um dia nos ensinou a passar por cima das maledicências, cantando “Deixa que digam,  que pensem, que falem. Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que que tem?  Eu não estou fazendo nada, Você também. Faz mal bater um papo,  assim gostoso com alguém?”

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JUNTOS OUTRA VEZ NO INFINITO

 

O maior legado que Jair nos deixou foram os bons exemplos de sua trajetória artística e pessoal, ensinando na escola da vida a arte de estar alegre e fazer a alegria dos outros, onde e como quer que estivéssemos.  Assisti-lo na TV ou ao vivo, no palco, era quase a mesma coisa, pois quando a gente não ia ao local onde se apresentava,  ele vinha até onde a gente estava, transpondo a telinha e penetrando nos lares com aquela magia de “Charlie Chaplin da MPB”, que só ele possuía. Com o respeito que me merecem os magnos do samba de todas as épocas, nenhum deles – nem mesmo Noel – conseguiu interpretar esse gênero musical genuinamente brasileiro com o esplendor de Jair Rodrigues, que o destacava no palco, tornando a melodia que expressava, por mais bela que fosse, mera coadjuvante de um embalo rítmico contagiante, que se constituía num convite irrecusável para “cair no samba”.

Dizer que Jair era perfeito na arte de cantar é pouco. Ele era mais que perfeito, porque seu canto transcendia o lugar comum expresso pelo termo. Na verdade ele era um espécie de porta-voz do samba, sempre vestindo-o com a  indumentária de um mágico capaz de “ludibriar” (no bom sentido)  todos quantos se atrevessem a tentar permanecer estáticos, alheios ao mínimo gingar, diante de suas performances de palco marcadas pela interatividade constante configurada numa forma sui generis de dialogar cantando. O que Jair mais gostava, nos seus shows ao vivo, era descer os degraus do palco iluminado e penetrar “no escurinho da plateia”, para ali cantar frente a frente com um ou outro espectador, como a dizer “eu não sou aquele ser intocável que você imagina quando estou lá em cima. Eu sou você mesmo cantando para mim no lugar onde você está”.

Do alto de sua versatilidade – atributo que possuía como poucos – Jair Rodrigues “pediu licença ao samba” e foi cantar “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, no Festival da Canção de 1966, conferindo à exitosa apresentação um potencial competitivo, que a levou ao empate com  “A Banda”, que fazia despontar no horizonte da MPB o talento emergente de Chico Buarque de Holanda.  Na sua vasta e variada discografia figuram álbuns inesquecíveis como Vou de samba com você, Dois na Bossa (que alavancou a carreira da fantástica Elis Regina entre 1964 e 1967) , Festa para um rei negro, Orgulho de um sambista, Eu sou o samba, Pisei no chão, Antologia da seresta, Carinhoso, Lamento sertanejo, Viva o meu samba e tantos outras. Entre seus sucessos mais recentes, figuram A Nova Bossa (2004), Alma Negra (2005) e Festa Para Um Rei Negro (CD e DVD – 2009). Como os grandes artistas de sua época, brilhou ao vivo no Olympia de Paris, em 1975.

      Jair Rodrigues nasceu no dia 6 de fevereiro de 1939, na cidade paulista de Igarapava. Era casado com Clodine Melo, com quem teve os filhos Jair Oliveira e Luciana Melo, ambos  herdeiros da verve artista do pai, fazendo carreira na arte musical. No fecho desse texto que lhe é dedicado, fica essa frase tirada de um trecho de um de seus sambas mais famosos, para espantar a tristeza de sua perda, algo que ele pediria mandar para bem longe, mesmo na hora derradeira de sua partida: “Tristeza, por favor vá embora, a minha alma que chora, está chegando o meu fim…”  E para lembrar o momento mais apoteótico de sua iluminada carreira, o vídeo da interpretação da “Disparada”, no Festival da Canção. 

 

Dipararada

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