A memória de um Capitão pode atravessar gerações e iluminar debates contemporâneos. Neste artigo, compartilho reflexões sobre o legado do meu avô
Capitão deixou um legado que vou desvendando aos poucos, conforme ele vai permitindo que tenha acesso.
Meu avô faleceu em 1970 e, por óbvio, eu ainda era pequeno.
Pela memória oral, meu pai e sobretudo minha avó, na idade adulta conhecei a juntar as peças deste relacionamento intrincado, tipo “rompecabeza”.
O Capita e o Livro “Lembranças de um Tenente”
Tanto foi assim que o “capita” foi capítulo no meu livro “lembranças de um tenente”, volume 1. O velho, revolucionário de 1930 e 1932, foi graduado e oficial da nossa Brigada Militar, tinha duas mudas de roupa: a farda da briosa e o pijama.
Se estava em casa estava de pijama, se estava na rua, estava fardado, simples como as “coisas do soldado”. Dentre as incontáveis lições ele disse e recomendava, pois pressentia, provavelmente, que eu seria o único da família a ser militar, que ao avistar o “Pedro e Paulo” na rua, ou avistar uma viatura da Brigada, deveria me “dirigir com respeito” aos militares que lá estivessem, pois “eles” estavam cuidando da minha segurança.

Autoridade, Respeito e Disciplina: Lições de Meio Século
E, se um dia, se aprende, que fosse prestada a devida continência, ou um acesso respeitoso com cabeça. Isto tem mais de 50 anos. Eu poderia enveredar aqui sobre princípio da autoridade, respeito e disciplina, mas vou enquadrar a temática sobre a ótica dos eventos havidos no RJ, ainda nesta semana.
Um policial vai além da farda! A farda não abafa o peito do cidadão, que é um pai, um esposo, pagador de impostos e contas, torcedor de um time.. ele é um qualquer, mas por opção de vida, ele ganha a vida dedicando-se à sociedade e usa uma farda!
Poderia ser a camiseta de um clube, um colete de confraria, jaleco ou avental. Não faria diferença, mas, a diferença está estabelecida porque ele usa a farda e por usar farda (eu também usei), criam-se “as partes”, no conceito do velho processualista Ovídio Baptista da Silva Hoje, usar farda é um problema para todos, inclusive para o usuário, pois sofre como qualquer cidadão as vicissitudes da vida e, ainda, SOFRE com posições políticos partidárias que transformam seu ganha pão, em uma das mais penosas atividades, daí o conceito de “partes”.
A Lei e o Desrespeito: Reflexões sobre o Estado
MAS, há um alento, pois contam com boa parcela da população ao seu lado, às bençãos do GADU e as rezas reiteradas e diuturnas de seus familiares. O homem fardado, a cavalo ou numa viatura, é um representante do que há de mais sagrado no mundo organizado: a lei! Lei como resultado do censo comum da uma sociedade sã e organizada, lei que regerá os padrões éticos e sociais. Ahhh lei!
Tudo o que se faz hoje é descumpri-la, rasgá-la, interpretá-la ao contrário dos interesses de quem a criou (a sociedade e não vou correr o risco de falar em Russeau, e seu contrato social), e nos tornamos reféns de um Estado que joga contra a sociedade.
Felizmente o “capita” não está vivo e não tenho mais compromisso com cátedra, pois teria que justificar o injustificável.
O Rio de Janeiro e a Ocupação de Espaços Perdidos
O que aconteceu no RJ foi uma reação de parte do estado que não aguenta mais aquela forma de ocupação de um espaço que tem dono! Tenho laços com RJ, tanto como destino de viagem, como residência de antigos colegas de farda. Tenho carinho pelo Rio; o “de janeiro”, já não me agrada!
O “RJ” precisa de um reinvento, pois precisa voltar a ser “a cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, o coração do Brasil”. O estado como ente abstrato e mediador de conflitos, por decisões judiciais, foi desconvidado a estar em determinados locais. O que aconteceu? Um outro poder tomou conta, aprimorou-se em meios de defesa, criou seu próprio “estado”, com exército, polícia e judiciário próprios. Verdadeiramente, um poder dentro do poder.
E como fazer para resolver a ocupação? Chama o pessoal da farda e da arma! Mas eles não criaram a situação!! Estão dentro dos quarteis, fazendo policiamento (quando dá, pois os direitos humanos sobrepõem-se ao direito do particular) …, pera… chama o BOPE! Aí é fácil e depois põe a culpa na polícia. NEGATIVO! Aí fica moleza.
O Estado Paralelo e a Crise de Soberania
A incompetência administrativa generalizada, uma decisão judicial burra e havida em Brasília, longe do teatro de operações e da realidade dos fatos, cede lugar àquilo que há de mais básico: a presença do estado nas áreas ocupadas. O que se criou no errejota, foi um estado dentro do estado, que agora não quer desocupar o lugar.
E lembro que não existe mais no direito pátrio reintegração de posse! Volto ao capitão! Retomemos o culto à autoridade, ao “bom direito”, no dizer de Galeno Lacerda, à bandeira e aos hinos, respeito irrestrito e acolhedor aos homens de farda que permitem que a “zona” não se estabeleça e possamos dormir à noite, e, quando avistarmos um representante da lei e da ordem, prestemos, no mínimo, um gesto de agradecimento por existirem e deixarem pela manhã seus familiares, que não sabem se voltarão no final do dia.
Saudações de Cavalaria!
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Muito bom e pertinente ao momento ora vivido no Brasil
Abraço meu amigo! És exemplo!