Base Clandestina de Treinamento do Comando Vermelho em Reserva Indígena de Mato Grosso é Desarticulada pela Polícia
A Polícia Civil de Mato Grosso desarticulou, em 13 de março de 2026, um centro clandestino de treinamento armado mantido pela facção Comando Vermelho (CV) dentro da Terra Indígena Tereza Cristina, também conhecida como Aldeia Korogedo Paru, no município de Santo Antônio de Leverger, a cerca de 35 km de Cuiabá.
A Operação Argos, conduzida pela Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Rondonópolis, revelou uma estrutura que funcionava há aproximadamente dez meses em área protegida por lei federal. O local, acessível apenas por barco em região 80% alagada e mata densa, servia para preparar jovens e adolescentes da facção em técnicas de combate, sobrevivência na selva e manuseio de armamento pesado.
Descoberta da Base Clandestina do Comando Vermelho em Reserva Indígena no Mato Grosso
A investigação teve início a partir de denúncias de tráfico de drogas no Rio São Lourenço, não diretamente relacionadas ao treinamento. Durante as apurações, que duraram dez meses, policiais identificaram que dois suspeitos — conhecidos como “Pescador” (casado com indígena e responsável pelo recebimento de carregamentos) e “Corola” ou “Fininho” (encarregado da distribuição) — também atuavam como instrutores.
Eles transportavam participantes de barco até uma ilha ou área às margens do Rio Vermelho, onde ocorriam os exercícios.
Os treinamentos incluíam montagem e desmontagem de armas, disparos a diversas distâncias com fuzis calibre .556 e .762, pistolas .40 e 9 mm, metralhadoras e até armamento calibre .30 em tripé. Técnicas de sobrevivência na mata e estratégias de fuga após confrontos também eram ensinadas.
O delegado Fábio Nahas descreveu o programa como um “curso estruturado”, com etapas semelhantes às de treinamentos de forças de segurança.
Para evitar que o barulho dos tiros chegasse à aldeia, o grupo subia o rio por vários quilômetros.
Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão na operação. Não há indícios de participação direta dos indígenas nas atividades, embora haja suspeita de que a comunidade tenha sido coagida a tolerar a presença da estrutura.
O Que é o Comando Vermelho
O Comando Vermelho surgiu na década de 1970 no presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Inicialmente chamado de Falange Vermelha, o grupo reuniu presos comuns e presos políticos durante o regime militar, com o objetivo inicial de combater a tortura e as condições carcerárias.
Com o tempo, evoluiu para uma organização criminosa dedicada principalmente ao tráfico de drogas, roubo de cargas e controle territorial.
Hoje, o CV atua em vários estados brasileiros e em rotas de fronteira, especialmente na região entre Brasil e Bolívia, onde disputa espaço com facções rivais como o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A facção é conhecida por sua estrutura hierárquica e por expandir operações para além das penitenciárias, incluindo treinamento de novos membros.
Crimes Cometidos ao Manter uma Base Clandestina como Esta
A manutenção da base configura vários delitos previstos na legislação brasileira. Entre eles estão a invasão e ocupação irregular de terra indígena, protegida pela Constituição Federal e pela Lei 6.001/1973 (Estatuto do Índio), que proíbe qualquer exploração não autorizada nessas áreas. O porte e o uso de armas de uso restrito às Forças Armadas (como fuzis de calibre militar e metralhadoras) violam a Lei de Armas (10.826/2003) e podem ser enquadrados como crime contra a segurança nacional.
O recrutamento e treinamento de adolescentes para atividades criminosas contraria o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei de Execução Penal. Além disso, o tráfico de drogas associado ao local configura crime organizado (Lei 12.850/2013). A estrutura também pode envolver danos ambientais, uma vez que a região alagada faz parte de reserva legal indígena. Todos esses atos são investigados como parte de organização criminosa.
Possíveis Objetivos da Facção com o Centro de Treinamento
De acordo com as investigações, o objetivo principal era profissionalizar os membros da facção para disputas territoriais. O treinamento em táticas de guerrilha e sobrevivência na selva preparava recrutas para confrontos armados com rivais ou forças de segurança.
A localização estratégica na fronteira com a Bolívia sugere interesse em controlar rotas de tráfico de drogas. Instrutores que também atuavam no transporte de entorpecentes indicam integração entre o núcleo de tráfico e o de capacitação militar.
Fontes policiais apontam que o CV buscava criar uma força mais preparada, semelhante a unidades especializadas, para expandir influência em áreas remotas.
Instituições Responsáveis por Coibir Esse Tipo de Delito
A coibição de crimes em terras indígenas envolve múltiplas esferas.
A Polícia Civil de Mato Grosso atuou na Operação Argos, mas terras indígenas são de competência federal.
A Polícia Federal (PF) tem atribuição para investigar invasões e crimes transfronteiriços.
A Fundação Nacional do Índio (Funai) é responsável pela proteção e fiscalização das reservas.
O Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) atuam em questões ambientais.
O Ministério Público Federal (MPF) e as Varas Federais acompanham casos dessa natureza.
Em áreas de fronteira, o Exército Brasileiro pode ser acionado para operações de segurança.
A integração entre essas instituições é prevista em protocolos de inteligência.
Omissões Cometidas na Situação
A base operou por cerca de dez meses sem detecção direta. A investigação só avançou após denúncias de tráfico de drogas, e não por monitoramento sistemático da área protegida.
Policiais afirmam que relatos de treinamentos surgiram em depoimentos de presos em diversas delegacias de Mato Grosso, mas não foram cruzados de imediato com inteligência sobre a terra indígena.
Não há registro de ações preventivas da Funai ou da PF na região durante o período, apesar da acessibilidade restrita e da proximidade com rotas fluviais conhecidas para tráfico. A escolha do local — distante o suficiente para abafar o som de tiros — explorou exatamente essa lacuna de vigilância.
Riscos para a Comunidade Indígena
A presença de uma base criminosa armada expõe os indígenas a riscos diretos. Há suspeita de coação para que a comunidade tolerasse as atividades, o que pode gerar medo e conflitos internos. O contato com traficantes e armas aumenta a possibilidade de violência, recrutamento forçado de jovens ou retaliações em caso de operações policiais. Além disso, o uso da terra pode causar degradação ambiental, afetando recursos como pesca e caça, essenciais para a subsistência. Casos semelhantes em outras reservas já resultaram em deslocamentos forçados e perda de confiança nas instituições de proteção.
Riscos para os Demais Cidadãos
O treinamento de novos membros armados fortalece a capacidade operativa da facção em disputas por rotas de drogas. Isso pode elevar os índices de violência em cidades próximas, como Rondonópolis e Cuiabá, e ao longo da fronteira com a Bolívia. Cargas de entorpecentes distribuídas a partir da região chegam a centros urbanos, ampliando o consumo e o crime relacionado. Cidadãos comuns ficam expostos a confrontos entre facções ou ações policiais em áreas antes consideradas seguras.
Riscos para o País e para a Soberania Nacional
Uma estrutura paramilitar em território nacional, especialmente em área indígena de fronteira, desafia o monopólio estatal do uso da força. O preparo de guerrilheiros em técnicas militares pode comprometer o controle de divisas e facilitar o fluxo de drogas e armas.
Especialistas em segurança apontam que o avanço de facções organizadas em regiões remotas enfraquece a autoridade federal e pode atrair atenção internacional sobre a capacidade do Brasil de proteger suas fronteiras. A disputa com o PCC pela rota Bolívia-Mato Grosso agrava o cenário, transformando áreas protegidas em zonas de conflito armado.
Possíveis Soluções para Prevenir Casos Semelhantes
Autoridades e especialistas citam a necessidade de maior integração entre Polícia Federal, Funai e forças estaduais para monitoramento contínuo de terras indígenas remotas, com uso de drones, sensores e patrulhas fluviais.
O reforço de inteligência compartilhada entre delegacias e o MPF poderia antecipar atividades criminosas.
Investimentos em proteção de fronteiras, incluindo operações conjuntas com o Exército, são apontados como medida para controlar rotas de tráfico. Legislações que agilizem a classificação de organizações como criminosas transnacionais e o aumento de recursos para a Funai também são discutidos em fóruns de segurança pública.
Por fim, programas de capacitação e desenvolvimento nas comunidades indígenas poderiam reduzir vulnerabilidades a infiltrações externas.
A Operação Argos expôs uma lacuna de segurança em área constitucionalmente protegida, mas também demonstrou a capacidade de resposta das forças policiais quando acionadas.
As investigações continuam para identificar outros envolvidos, e o caso serve de alerta para o monitoramento de reservas em todo o país.
Considerações finais
A eventual confirmação de uma base clandestina de treinamento em área indígena no Mato Grosso representaria um caso de alta complexidade, envolvendo segurança pública, proteção ambiental e direitos indígenas. A apuração rigorosa dos fatos por parte das autoridades é essencial para determinar a veracidade das informações e definir as medidas cabíveis.
Situações semelhantes exigem respostas coordenadas e estruturais, com foco na prevenção, fiscalização e fortalecimento das instituições responsáveis pela proteção do território nacional.
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