Falcão Negro em Perigo e o paralelo real com o heroísmo brasileiro no Batalhão Suez
O cinema contemporâneo imortalizou o filme Falcão Negro em Perigo, lançado em 18 de janeiro de 2002, como um retrato fiel da complexidade militar.
A obra detalha uma missão de reconhecimento em Mogadíscio que, devido ao abate de um helicóptero Black Hawk, transformou-se em uma desesperada operação de resgate em meio a uma guerra civil.
Embora as forças armadas dos Estados Unidos sejam frequentemente citadas por sua excelência logística e tecnológica, a história real revela que imprevistos drásticos não escolhem bandeira.

Um cenário de gravidade semelhante foi enfrentado por militares brasileiros durante a Missão do Batalhão Suez, que se tornou a mais longeva do Exército Brasileiro fora do país, com início em 20 de janeiro de 1957 e se estendendo até 13 de junho de 1967.
Entre os diversos brasileiros que serviram na região do Canal de Suez, destaca-se a trajetória de João Francisco Batista D’Avila, graduado do 17º Batalhão de Infantaria e integrante do 5º Contingente.
Em relatos de seu sobrinho, o 2º Tenente de Cavalaria Carlos Afonso Urnau Athanasio, ele descrevia a dura realidade do deserto: a solidão profunda, o clima hostil e os perigos constantes de patrulhas de reconhecimento, onde armadilhas mortais eram camufladas com objetos simples, como relógios deixados na areia. Contudo, o momento de maior tensão para o contingente brasileiro ocorreu durante o 20º Contingente, quando o cenário geopolítico sofreu uma ruptura drástica.
Sob a liderança do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, o Egito decidiu nacionalizar a região do canal e iniciar ofensivas contra posições israelenses.
O desdobramento foi a Guerra dos Seis Dias, iniciada em 5 de junho de 1967 e encerrada em 10 de junho de 1967. No epicentro deste conflito estavam os soldados brasileiros, cuja função original era a manutenção da paz, e não o combate direto.
Em uma decisão considerada equivocada por especialistas, a Organização das Nações Unidas retirou sua jurisdição e presença da área, deixando a tropa brasileira desamparada, sem suprimentos de munição, alimentação ou canais de comunicação, enquanto eram alvos de bombardeios constantes.

Nesse cenário de caos, muitos militares brasileiros precisaram percorrer mais de 500 quilômetros em meios de fortuna, o que significa que tiveram que improvisar deslocamentos utilizando qualquer recurso disponível no momento, como veículos civis abandonados, animais ou caminhadas forçadas sob fogo cruzado, para alcançar um ponto seguro de resgate.
Entre esses homens estava o veterano Sérgio Luiz Dias, atual presidente da comissão de outorgas da associação dos integrantes do Batalhão Suez. Sérgio Luiz Dias, hoje com 80 anos de idade, vivenciou o martírio da guerra em sua forma mais crua; todo aquele drama, desespero e dificuldade extrema que o público costuma ver em filmes de guerra americanos, ele enfrentou na vida real, sentindo na pele os efeitos deletérios de um combate encarniçado.
Atualmente, o veterano dedica-se a preservar a memória de seus companheiros. De março a novembro, cerimônias militares são organizadas para honrar tanto os que já faleceram quanto os que ainda desfilam com o uniforme adornado pelas distinções conquistadas em campo de batalha.
Mesmo com o passar das décadas, o brilho nos olhos desses soldados, agora com o andar cadenciado pelo tempo, reflete a eficiência e o garbo de uma missão cumprida em condições extremas, mantendo viva a história de um dos capítulos mais desafiadores da diplomacia militar brasileira.

Gilberto Vieira de Sousa é Jornalista (MTB 0079103/SP), Técnico em Sistemas de TV Digital, Fotografo Amador, Radioamador, idealizador e administrador dos sites GibaNet.com, AssessoriaAnimal.com.br e cotajuridica.com.br, jornalista no Programa Lira em Pauta, Correspondente internacional na Rádio Vai Vai Brasile Italia FM, jornalista no Programa Meio Ambiente com Renata Franco.