Salve Jorge – A invasão dos Signos (Final)

Nelson Valente

Com base na literatura da autora Glória Perez da novela [Signo] Salve Jorge, ela se coloca na posição do público alvo de seu produto e realiza sua obra, construída, refletida e refratada a partir do recorte de uma realidade: tráfico de pessoas.

A novela [Signo] Salve Jorge exerce uma espécie de fascínio (fetiche= feitiço) no imaginário popular dentro de seu universo de representações e na formação de opinião de uma parcela muito significativa da população.

Segundo alguns autores, isso ocorre porque ninguém quer ver na novela a vida exatamente como ela é: existe aí uma expectativa de sonho, de fantasia associada à imagem. Como código icônico, classificamos aquilo que é de percepção visual. Para Eco, o código icônico é uma forma detectada no vídeo, que pode ser entendida como denotadora de si mesma, ou seja, entendida pelo processo comum perceptivo, ou denotadora de outra forma, o que o receptor reconhece como elemento de sua realidade física e cultural.

Eco fala ainda que pode ocorrer ainda a recepção de uma mensagem desconhecida pelo receptor. Neste caso, o receptor perceberá a mensagem não com base no código figurativo, mas sim pelo código perceptivo comum. O receptor também pode entender a mensagem pelo contexto. (ECO, 2006 p. 375-6).

A mensagem na novela [Signo] Salve Jorge, enquanto composta de imagenssons musicais ou ruídos, e emissões verbais. Para Eco o objetivo principal é saber “o que efetivamente público recebe, seja do que lhe agrada como daqueles que rejeita”. (ECO, 2006 p.366).

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A novela da TV Globo [Signo] Salve Jorge, exibida em horário nobre da televisão brasileira, tem a finalidade de chamar a atenção sobre a banalização do tráfico de pessoas em todos os seus aspectos: a nudez e o repertório cênico do sexo de prazer efêmero e sem compromisso: um mundo de mercadoria, reduzidos aos desejos e necessidades: poder, sexo e sedução. E o ritual evoca o mito, o rito e a comunicação, sobretudo as referências culturais, produzidas pelas linguagens, provocando o imaginário popular desejado: a “banalização do sexo, da família, da ética, da lógica, da estética e dos bons costumes”

É uma verdadeira orgia na busca de emoções, dentro e fora do casamento e os valores se reduzem a imagens que excitam. Nesse processo, o próprio indivíduo acaba por reduzir-se à imagem que tem de si mesmo – formando uma via de consumo visual.

Em entrevista, Glória Perez fala sobre a novela “Salve Jorge”:

[PortalOPlanetaTV] De onde surgiu a ideia central da trama e porque optou pelo título “Salve Jorge”?

Gloria Perez – A ideia surgiu no momento em que assisti a retomada do complexo do Alemão. Emocionante ver o resgate daqueles brasileiros que durante 30, 40 anos estavam vivendo sob o domínio de criminosos. Imaginei uma história que pudesse surgir da convivência daqueles moradores com a cavalaria do exército que ocupou a região, dando início ao processo de pacificação.

O título surgiu da constatação do quanto essas pessoas foram guerreiras para conseguir sobreviver sob o domínio do tráfico e do quanto ainda terão de ser, para escrever essa página nova de sua história. Quando se fala em guerreiro se pensa no mito de São Jorge, que simboliza, não só no Brasil, mas em todo o mundo, a força guerreira que trazemos em nós, e que muitas vezes só conhecemos quando o dragão se apresenta: diante dos obstáculos a vencer!”

[PortalOPlanetaTV] Suas novelas são marcadas por campanhas sociais. Desta vez será contra o tráfico de seres humanos. Como isto será abordado

Gloria Perez – Através da história central: uma jovem moradora do Alemão (Morena) aceita um emprego temporário no exterior certa de que assim resolveria seus problemas financeiros e acaba vítima do tráfico de pessoas. A novela é a luta de Morena para escapar e a de Théo para resgatá-la”

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A linguagem da cobertura midiática do processo de “pacificação” das favelas do Rio de Janeiro, principalmente a cobertura e atuação midiática das operações no Complexo de Favelas do Morro do Alemão, se tornaram emblemáticas para a compreensão da transformação dos processos de comunicação, política e da novela [Signo] Salve Jorge, de autoria da escritora consagrada Glória Perez.

O complexo de favelas na região metropolitana carioca dominadas pelo medo do poder narcotráfico e suas ramificações criminosas formam um marco geopolítico que desafia a governabilidade, pressionando o Estado a criar novas estratégias de atuação.

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Totia Meirelles [Wanda] Adriano Garib [Russo] Claudia Raia [Lívia]

Um território que contém a ambiguidade de ser uma região de exclusão, porém inserida em uma das regiões mais nobres da cidade. Neste território, o medo se apresenta como uma dimensão complexa; cuja ambivalência gera o medo derivado dos fatores reais (narcotráfico, ameaças e violência) e o medo implantado.

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Nos últimos trinta anos, a história do Complexo de Favelas do Morro do Alemão se confunde com a história do narcotráfico no Brasil e serve de parâmetro histórico. Inicia com os primeiro “malandros” e golpistas que viam ali uma estabilidade para estar próximo à cidade, porém fora do alcance da polícia.

Pescoço

O tráfico de drogas insere neste ambiente um cenário ambíguo que concomitante repele e atrai pessoas. Em torno dos pontos físicos de venda e distribuição da droga estabelece uma malha cada vez mais intrincada de caminhos dificultando e protegendo os criminosos. Há uma inércia dissolvida dos códigos no cotidiano das pessoas gerando um processo anticomunicacional por excelência. O habitante assume como imaginário próprio, a busca de uma estabilidade das coisas, permanência das relações e a continuidade das instituições em oposição ao medo ostensivamente apresentado. Essa sedentarização do cidadão em relação aos seus desejos possui sua raiz nos processos dinâmicos do cotidiano dos habitantes da favela, criando assim uma bipolaridade.

Imprescindível entender o efeito concreto dos meios de comunicação nas pessoas, nos seus imaginários e em suas crenças, na novela [Signo] Salve Jorge.

Márcia e Érica

A emancipação da mulher na sociedade é uma conquista que levou anos e anos para se tornar uma realidade presente. A mulher compete profissionalmente em igualdade com o homem, mas não pensa como ele. A mulher consegue ser firme, tem poder de decisão, mas continua sensível, romântica, procurando relacionamentos estáveis. Na novela a autora, Glória Perez, não confunde a emancipação feminina, mostrando que a mulher pode e deve agir como o homem no que diz respeito ao sexo. A regra não é ter relacionamento extraconjugal, ter mais de um amante ou procurar experiências sexuais constantes. A mulher sempre condenou essas práticas masculinas e a autora Glória Perez faz o público entender que a emancipação feminina não se permite banalizar-se sexualmente.

Vamos considerar a década de 90 como assimiladora das mudanças do comportamento feminino na sociedade. Cada vez mais surgem exemplos de novelas de tevê nos quais presencia a participação do homem em funções antes consideradas femininas, associando o trabalho doméstico a sua perda de masculinidade. Hoje, por diferentes motivos, muitas vezes por desemprego, alguns homens tiveram que assumir funções domésticas, ainda que relutantes. Suas esposas, por necessidades financeiras, mantiveram-se em funções remuneradas, em profissões as mais variadas.

Muitos acusam o feminismo dos anos 60 de ter desestabilizado o universo masculino, entrando nos domínios até então reservados a eles.  Com a força e o poder da gestação, a mulher reinava sobre o lar, a educação dos filhos e encarnava a lei moral que definia os bons costumes.

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Para o homem restava o resto do mundo, tendo a seu cargo a produção, a criação e a política, a esfera pública como seu espaço natural. Essa dicotomia dos mundos – homem x mulher – era garantia de harmonia entre ambos.

A novela da TV Globo [Signo] Salve Jorge, exibida em horário nobre da televisão brasileira, tem a finalidade de chamar a atenção sobre a banalização do tráfico de pessoas em todos os seus aspectos: a nudez e o repertório cênico do sexo de prazer efêmero e sem compromisso: um mundo de mercadoria, reduzidos aos desejos e necessidades: poder, sexo e sedução. E o ritual evoca o mito, o rito e a comunicação, sobretudo as referências culturais, produzidas pelas linguagens, provocando o imaginário popular desejado: a “banalização do sexo, da família, da ética, da lógica, da estética e dos bons costumes”.

Tráfico de pessoas: a proposta da autora Glória Perez.

[Signo] Salve Jorge, ação da máfia no tráfico de pessoas: os diálogos são capciosos, carregados de intenções, de intriga, insinuações maldosas, o desencantando, as agressões morais e físicas, os assassinatos: o Poder da máfia no tráfico humano.

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O cotidiano dos relacionamentos como se o ser humano precisasse ter no seu dia a dia, fortes emoções e, de certo modo, emoções pautadas no sexo, drogas, prostituição, tráfico de pessoas e “tráfico criminoso” de crianças para fins de adoção ilegal ou práticas análogas à escravidão, servidão ou a remoção de órgãos.

A mentira em família tem uma trajetória tão longa quanto a história das civilizações e suas intrincadas relações. Tais interações implicam sempre a presença do elemento psicológico na arquitetura de adoção de uma criança e, portanto, caracterizam a inseparabilidade, nessa organização familiar, dos fenômenos subjetivos que integram sua composição.

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A mentira vista assim não é simplesmente uma carta no jogo familiar usada bem ou mal pelos pais adotivos ao sabor das razões da família, mas uma função tanto do psiquismo humano quanto da adoção de crianças. Os pais adotivos devem amar, educar e sempre falar a verdade à criança: sua origem.

Os pronomes não aguardam a ética para que se coloquem nos seus lugares. Estão sempre neles. A boemia dos verbos é que mutilam a boa ordem das frases. Há que lhes perdoar. Não se desgrudam da ideia de movimento. A novela [Salve Jorge] é o movimento em prol das vítimas de tráficos de pessoas: esse é o código.

Nelson Valente é jornalista, professor universitário e escritor. Pesquisador nas áreas de psicanálise, comunicação, educação e semiótica. É mestre em Comunicação e Mercado e doutor em Comunicação e Artes. O autor também é especialista em Legislação Educacional, Psicanálise,Teoria da Comunicação e Tecnologia Educacional e já publicou 16 (dezesseis) livros sobre o ex-presidente Jânio Quadros e outros sobre educação, parapsicologia, psicanálise e semiótica, no total de 68 (sessenta e oito) livros e alguns no prelo. Ex-presidente da Academia Blumenauense de Letras/ALB, Acadêmico. Membro da Sociedade dos Escritores de Blumenau/SEB.

Uma resposta para "Salve Jorge – A invasão dos Signos (Final)"

  1. Nair P.F.Fernandes (@nairpessoaf)   22/04/2013 em 22:23

    Esses seus artigos sobre a novela caberia parte num livro de semiótica e parte num livro de psicologia comportamental. Sua análise científica é incontestável apesar do fascínio que esta novela está provocando em você, pela maneira como você a analisa.

    Como aluna que ouve e presta atenção ao que é dito pelo professor, passaria horas ouvindo suas análises, sempre concordando em uns pontos e discordando em outros -já que gosto muito de “contestar”.rsrsrsrs Como espectadora de novelas (atualmente não mais) tenho me decepcionado com as mesmices de todas elas: competição no trabalho e no amor, triângulos amorosos beirando o ridículo da promiscuidade e vulgaridade, traições que exacerbam a cada novela, além da crescente violência e da tentativa de manter o telespec (como diz Emílio do Pânico) alienado no que se refere aos verdadeiros problemas de nosso país.

    Para quem está acostumado(a) a escrever novelas, não seria difícil abordar temas significantes e sérios de nosso país (como por exemplo a escravidão que alguns políticos fazendeiros insistem em manter em suas fazendas; a corrupção, a inversão dos valores morais, a impunidade de políticos marginais e marginais não políticos e a manutenção de uma Lei que só os beneficia) tudo isso regado ao sexo e prostituição no Congresso Nacional onde até calcinha foi encontrada nos corredores.

    No mais, adoro ler tudo o que você escreve. Motiva-me também a escrever.

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