Aos 63 anos, o militar da reserva José Vargas Jiménez é um pedaço da história recente do Brasil. Militar que lutou durante a Guerrilha do Araguaia (1972 – 1975), ele protagonizou uma história que colocou brasileiros em lados antagônicos. De um lado, militares ordenados a executarem aqueles que oferecessem resistência a prisão, e do outro, jovens que lutavam em nome do comunismo.
Corumbaense, Vargas se preparou na região amazônica, onde fez um curso de sobrevivência na selva. Conhecido durante a guerrilha pelo nome de Chico Dólar, o militar conta em entrevista exclusiva ao jornal O Estado como foi a operação que resultou na morte de 69 guerrilheiros, 11 militares e quatro camponeses sem ligações políticas. Os guerrilheiros se instalaram na região em 1968, em uma ação comandada pelo PC do B (Partido Comunista do Brasil).
Favorável à abertura dos arquivos secretos do Regime Militar (1964-1985), Vargas já lançou o livro “Bacaba – Memórias de um guerreiro de selva na Guerrilha do Araguaia”.
E, agora, lança o segundo título “Bacaba II”, que conta os quatro anos de operação no Araguaia, inclusive a Operação Marajoara, considerada a mais dura.
Sem relatar casos de tortura, Vargas afirma que durante os meses em que passou no Araguaia, a ordem era uma só: matar quem reagisse à prisão. “Primeiro, era capturar. Na reação, você matava.
“Quando retornei lá, em 1976, um companheiro me disse que ele tentou fugir e, por isso, foi morto.
O Estado – Como o senhor foi escalado para ir lutar na Guerrilha do Araguaia?
José Vargas– Foi em 1973, quando já tinha iniciado a Guerrilha. Serva em Corumbá em 1972 e fui transferido para o Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, na região amazônica.
O Estado – Como foi a Operação Marajoara?
José Vargas – Essa é aquela operação que não saiu em nenhum livro.
Existem outras operações.
Quando começamos em outubro, prendemos uns 40 camponeses na nossa primeira saída.
Eu trabalhava com o Curió.
O Estado – Quando vocês chegaram ao Araguaia, qual foi o primeiro impacto?
José Vargas– Eu comandava um grupo de 10 homens e o nosso sentimento era de medo.
Se demoraríamos uma hora para chegar em certo local, levávamos o dobro.
O Estado – Quantos guerrilheiros o senhor chegou a capturar?
José Vargas – Capturei dois guerrilheiros.
Podia até tê-los matado, porque a ordem nossa era matar.
Mas, primeiro, os prendíamos.
O Estado – Hoje, se fala muito do uso de tortura durante o Regime Militar. Qual era a recomendação das Forças Armadas para quem estava na linha de frente?
José Vargas– Teve a guerrilha urbana e a rural.
O Estado– A ordem era matar?
Porque guerra é guerra. Se você não mata, você morre.
Porque, se não, nos capturavam e nos torturavam.
Os guerrilheiros eram cerca de 100, 120.
Eles (guerrilheiros) eram jovens também. Eu tinha 24 anos.
O Estado – Então, eles já conheciam toda a região?
José Vargas – Sim, com certeza.
Eles estavam lá desde 1968 e nós só chegamos em 1972.
O Estado – O que motivou o senhor a escrever dois livros sobre este período?
José Vargas– O primeiro, Bacaba, escrevi em 2007. Eu tinha documentos que me deram como confidenciais-secretos.
Antes de matarmos um guerrilheiro, eles mataram um homem nosso, o cabo Rosa. No ano passado, um guerrilheiro foi enterrado com honras. E os nossos chefes não falaram nada. No meu livro, estou provocando os dois lados.
O Estado – O senhor acredita que esta é uma história de meias verdades?
José Vargas – Dos dois lados.
Se eles criarem a comissão da verdade, eles também devem olhar o lado deles. Eles só falam que nós matamos. Ninguém fala que eles também mataram. Já estive no Congresso três vezes e cheguei a ser ameaçado de morte. Mas não tenho medo de morrer. Há três meses atrás, prenderam o Curió por porte de arma.
O Estado – O senhor foi um dos que voltou no Araguaia para tentar localizar os corpos?
José Vargas – Sim, nós fomos lá em Bacaba e mostrei onde tinha visto umas ossadas, mas não estava mais lá. Depois, teve a operação limpeza, que foi comandada pelo Curió.
O Estado– Hoje, se discute muito a abertura dos arquivos da época da Ditadura. Como o senhor vê essas movimentações?
Porque hoje só se vê o lado deles, que estão no poder. Combati para ter essa democracia e sou idealista.
Meus livros são para que as pessoas saibam a verdade. Tudo bem, que nossos chefes precisam cumprir as ordens da presidente, mas eles não dão a opinião deles. Eles só fazem isso quando vão para a reserva.
O Estado – Da Guerrilha do Araguaia, o que mais marcou o senhor?
José Vargas – Depois que saímos de la, muitos de nós ficaram internados. Até se reintegrar a sociedade foi muito difícil. Como estávamos em uma guerra, era normal ver morte. E quando viemos para a cidade foi difícil. Qualquer coisa que acontecia, já queria puxar uma arma. Cheguei neurótico. E só consegui me reintegrar por conta da ajuda da minha família.

José Vargas Jiménez (Chico Dólar), nasceu em 11 de maio de 1948, em Corumbá-MS, incorporou ao Exército Brasileiro no 17º Batalhão de Caçadores no ano de 1967 e solicitou sua transferência para a Reserva Remunerada em 30 de novembro de 1994, como 2º Tenente do Quadro de Administração de Oficiais, com 46 anos.
Em 1973, fez o Curso CE-17 – Guerra na Selva, no Centro de Operações na Selva e Ações de Comando (COSAC), hoje Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), concluindo como Guerreiro de Selva Nº 702, que o qualificou, técnica, física e psicologicamente para as operações de combate à guerra de guerrilha na selva.
Após a conclusão deste curso participou da Guerrilha do Araguaia, durante a fase que exterminou os guerrilheiros da FOGUERA, do PC do B, atuando na base de Operações em Bacaba, localizada no Km 68 da rodovia Transamazônica em Marabá-PA.
Em 1981 concluiu o Curso C2-Operações, na Escola Nacional de Informações (EsNI) em Brasília-DF, passando desde então, até a sua transferência para a reserva em 1994, a trabalhar no Serviço de Inteligência do Exército.
Foi condecorado pelo Exército Brasileiro, por bons serviços prestados à Pátria, principalmente na Amazônia e na Guerrilha do Araguaia, com as seguintes medalhas militares:
– Bronze, 10 anos de bons serviços prestados;
– Prata, 20 anos de bons serviços prestados;
– Serviço Amazônico, mais de 10 anos servindo na Amazônia;
– Pacificador Com Palma de Ouro, com risco da própria vida, por atos pessoais de abnegação, coragem e bravura. Especialmente por ter participado ativamente da Guerrilha do Araguaia e ter capturado “Vivo”, o guerrilheiro Antônio Pádua Costa (Piauí), que hoje consta como “Desaparecido”.
Possui curso técnico redator e curso superior, é Bacharel em Direito “Ciências Jurídicas”, formado em 1992 pelas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT), hoje Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande-MS.
Hoje é escritor, lançou em 2007 o livro BACABA – Memórias de um Guerreiro de Selva da Guerrilha do Araguaia e 2011 lançou o livro Bacaba II – Toda a verdade sobre a Guerrilha do Araguaia e a Revolução de 1964
