Além de apreender as armas, é preciso desmontar o crime organizado

Marco Antônio Moura dos Santos

Todos os anos, as forças de segurança brasileiras apreendem mais de 100 mil armas de fogo[2]. O número impressiona e demonstra o comprometimento dos policiais que, diariamente, arriscam suas vidas para proteger a sociedade.

Mas a pergunta que realmente importa é outra: Se apreendemos tantas armas, por que o crime organizado continua cada vez mais forte?

A resposta está justamente na análise do Instituto Sou da Paz[3] e referida na matéria: o fluxo do crime mudou.  Nada que seja novo no “quartel de Abrantes”.[4]

Todos os anos, as forças de segurança brasileiras apreendem mais de 100 mil armas de fogo. O número impressiona e demonstra o comprometimento dos policiais...

As organizações criminosas adaptam suas estratégias, reduziram a dependência do contrabando internacional, ampliaram a fabricação clandestina, diversificaram suas formas de abastecimento e passaram a explorar, com maior intensidade, o mercado interno. Enquanto o Estado comemora grandes apreensões, as facções demonstram capacidade de repor rapidamente seus arsenais, mantendo intacto seu poder de intimidação, violência e domínio territorial.

Esse cenário reforça e indica, com as evidências produzidas por organismos nacionais e internacionais, que a violência no Brasil não pode ser explicada apenas pela circulação de armas. O fortalecimento de organizações criminosas altamente estruturadas, com capacidade financeira, logística e territorial, constitui um dos principais fatores responsáveis pela escalada da criminalidade e pelo desafio imposto ao Estado

Quando uma facção possui inteligência, logística, recursos financeiros, controle territorial, influência econômica e comunicação nacional, não estamos mais diante de um problema exclusivamente policial. Estamos diante de uma ameaça à soberania do Estado Democrático de Direito.[5]

O Brasil precisa abandonar a lógica de agir apenas sobre as consequências e começar a enfrentar as causas. Não basta apreender armas. É preciso destruir as cadeias de financiamento das facções, bloquear seus recursos financeiros, reduzir a influência, poder político em todas e cada esfera e instância de poder e de governo, confiscar seus patrimônios, interromper suas rotas logísticas, desarticular suas lideranças e impedir que continuem recrutando, expandindo e corrompendo instituições.

Também é urgente superar um dos erros da e na gestão da segurança pública brasileira: a fragmentação institucional. Enquanto as organizações criminosas atuam de forma integrada em todo o território nacional e, muitas vezes, além das fronteiras, o Estado permanece dividido entre estruturas que nem sempre compartilham informações, inteligência e planejamento estratégico; quer seja no sistema federativo União e Estados, quer seja nas relações internas dentro das próprias Unidades federativas.

Essa realidade exige uma profunda reorganização da governança nacional da segurança pública.  É necessária que exista uma capacidade efetiva de coordenação nacional, responsável por integrar inteligência, tecnologia, operações e planejamento entre Polícia Federal, Polícias Civis, Polícias Militares, Polícias Penais, Receita Federal, órgãos de inteligência e demais instituições envolvidas no enfrentamento ao crime organizado.

Ao mesmo tempo, é indispensável fortalecer o controle das fronteiras, ampliar a cooperação internacional, integrar plenamente os sistemas de rastreamento de armas e investir continuamente na valorização dos profissionais da segurança pública, oferecendo salários dignos e compatíveis com a importância funcional, tecnologia, capacitação, equipamentos modernos e melhores condições de trabalho.

Ainda podemos considerar que há uma leitura contraditória do Estado, pois as armas ilegais em mãos da criminalidade organizada são um risco, ameaça e agressão a toda sociedade; enquanto ao contrário o Estado prioriza negar, restringir e dificultar o cidadão do direito de exercer sua garantia de autodefesa e proteção dos seus e de suas propriedades.

A segurança pública não pode continuar sendo conduzida por decisões isoladas, improvisações ou disputas políticas. Precisa ser tratada como uma verdadeira política de Estado, baseada em planejamento, integração institucional, inteligência e avaliação permanente de resultados.

Essa visão está plenamente alinhada aos princípios que defendemos: um Estado eficiente, responsável, focado em resultados e firme no combate à corrupção, à impunidade e ao crime organizado. Segurança pública não se faz com discursos ou estatísticas isoladas. Faz-se com gestão, integração, autoridade e coragem para enfrentar estruturas criminosas que se tornaram cada vez mais sofisticadas.

O cidadão de bem não quer apenas saber quantas armas foram apreendidas. Quer voltar a viver sem medo, ver o Estado recuperar os territórios dominados pelas facções e justiça séria, forte e imparcial. Precisamos que os criminosos sejam processados, devidamente julgados e cumpram a pleno a execução penal, ou seja sejam responsabilizados e presos. Nós queremos que as famílias sejam protegidas. Desejamos liberdade para trabalhar, empreender e viver em paz. É hora de substituir políticas reativas por uma estratégia nacional permanente de enfrentamento ao crime organizado.

O Brasil não precisa apenas apreender mais armas. Precisa retirar das organizações criminosas o poder econômico, operacional e territorial que lhes permite continuar ameaçando a sociedade. Essa é a verdadeira mudança que o país precisa realizar.

agosto 2026                                                                                                                             

 

Por um Brasil mais seguro, mais justo e com um Estado eficiente onde realmente importa.

[1] Coronel da reserva da Brigada Militar, Especialista em Segurança Pública (PUCRS).

[2] Fonte: SINESP (Dados fornecidos pelos estados e Distrito Federal) Data da extração dos dados: 25/02/2026. In: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/estatistica/download/mapa-de-seguranca-publica-2026.pdf/ acessado em 02/08/2026,

[3] O SUL, 01 de agosto de 2026, pág. 26

[4] https://barbacenaonline.com.br/noticia/2023/11/26/tudo-como-antes-no-quartel-de-abrantes/

[5] Alguns artigos já publicados fazem referência a essa situação: https://correiobrigadiano.com.br/pcc-e-cv-estamos-defendendo-a-soberania-brasileira-ou-as-organizacoes-criminosas/; https://correiobrigadiano.com.br/o-ioio-da-seguranca-publica-brasileira-o-brasil-descobriu-novamente-o-crime-organizado-bilhoes-em-planos-escassez-de-resultados-episodio-1/

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