Em nove dias de programação, festival em São Bento do Sapucaí coloca literatura em diálogo com cultura popular, escolas rurais, artesanato, memória e produção cultural do interior; 80% das atividades são realizadas por artistas da região
São Bento do Sapucaí (SP) – O que acontece quando uma festa literária decide colocar livros, Folia de Reis, maracatu, fandango caiçara, escolas rurais, cinema, bordado, gastronomia e cultura popular no mesmo palco? É essa experiência que a 14ª Festa Literária do Interior Paulista Eugênia Sereno (FLIPES) propõe em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira. Entre 12 e 20 de setembro, incluindo a pré-abertura, a cidade se transforma em um grande território de criação, com programação gratuita que ocupa ruas, escolas, biblioteca, espaços culturais e outros pontos do município. Mais do que reunir escritores e leitores, a FLIPES coloca a literatura em diálogo com os saberes, as manifestações e os artistas de um território, fazendo da própria cidade protagonista da festa.
Ao longo de nove dias, a programação reúne lançamentos de livros, encontros com escritores, oficinas, contação de histórias, exposições, cinema, shows e atividades para crianças, mas também abre espaço para manifestações da cultura popular, artesanato, gastronomia e ações formativas. Entre os nomes convidados estão Bel Santos Mayer, Célio Turino, Cris Eich, André Kondo, André Gravatá, Lilia Guerra, Socorro Lira e Lenna Bahule, ao lado de artistas, escritores, artesãs, grupos culturais e produtores da Serra da Mantiqueira. Cerca de 80% das atividades são realizadas por artistas e agentes culturais da própria região, reforçando a vocação da festa para dar visibilidade à produção do interior.
Uma festa que começa na rua
A programação já começa no sábado, 12 de setembro, com a pré-abertura. O Cortejinho da Cia Severina Pinda abre o dia, às 10h, seguido pelo lançamento de livro de Maria Cininha, contação de histórias da Cia Severina, intervenção do Teatro Realejo pelas ruas, abertura da exposição Meu Mundo de Papel, de Eunice Copy, e a apresentação Jazzida Poesia Arcaica.
No domingo, 13 de setembro, acontece a abertura oficial, e a literatura literalmente ganha as ruas de São Bento do Sapucaí. Maracatu Mantiqueira, Folia de Reis, Sucatas Ambulantes e Teatro Realejo participam do cortejo, seguido pela 4ª edição da Maratona de Histórias “Contando o Contado”, reunindo diferentes grupos e artistas em torno da tradição oral.
É uma escolha curatorial que sintetiza a identidade da FLIPES: a cultura popular não aparece como atração paralela à literatura, mas como parte da narrativa do próprio festival.
Literatura em diálogo com cinema, artes e memória
A programação também amplia o conceito de literatura para outras linguagens. Na segunda-feira, 14, o “Filme e Prosa” promove um encontro entre literatura e cinema com o escritor e cineasta Ernesto e a Produtora de Cinema Oratório. No dia seguinte, o público poderá assistir à exibição de BDL Boca de Lobo, seguida de bate-papo com o diretor, e participar de um recital dedicado às músicas de cinema.
A programação inclui ainda oficina de estandarte literário, oficina de bordado, atividades sobre livro-objeto e livro de artista, exposição de livros e uma mesa sobre ilustração. A proposta é fazer com que o livro deixe de ser apenas objeto de leitura e se conecte ao corpo, às artes visuais, à música, ao cinema e às práticas manuais.
A escola rural também é território literário
Um dos diferenciais da FLIPES é a circulação de atividades pelas escolas rurais do município. Na segunda-feira, uma contação de histórias circula pelas escolas, e a programação mantém atividades destinadas ao público infantojuvenil ao longo da semana. A festa também promove, no último dia, a roda de conversa “Será que meu filho, minha filha é escritor ou escritora?”, voltada a escritores infantojuvenis e às crianças.
A iniciativa amplia o alcance do festival para além do público que já frequenta eventos literários e reforça o compromisso da FLIPES com a formação de leitores e com o acesso à cultura. A festa atende, em média, cinco escolas públicas por edição e reúne públicos de diferentes idades e municípios da região.
Eugênia Sereno: a escritora que dá nome à festa
A escolha de São Bento do Sapucaí como território literário também está diretamente relacionada à história de Eugênia Sereno, pseudônimo de Benedicta Pereira de Rezende Graciotti. Nascida no município em 1913, a escritora, professora e pianista teve sua trajetória profundamente ligada à vida e às tradições do interior da Mantiqueira. Seu romance O Pássaro da Escuridão, publicado em 1965, recebeu o Prêmio Jabuti de Autora Revelação em 1966.
Sua obra tornou-se referência justamente por registrar costumes, paisagens e modos de vida do interior brasileiro. A FLIPES, ao levar seu nome e realizar-se em sua cidade natal, estabelece uma ponte entre esse legado e a produção contemporânea, valorizando tanto a memória literária quanto as novas vozes que surgem no interior paulista.
Comedoria Literária: quando literatura e gastronomia dividem a mesma mesa
A experiência da FLIPES também se estende à gastronomia. Em São Bento do Sapucaí, a culinária é parte da identidade cultural da Mantiqueira, combinando receitas caipiras, fogão a lenha e ingredientes tradicionais com uma nova produção de vinhos de altitude, azeites, queijos artesanais, cogumelos, frutas vermelhas, cervejas e outros produtos locais.
Um dos lugares que melhor traduz esse encontro é a Comedoria Literária, instalada no histórico Casarão da Memória. O espaço reúne restaurante, biblioteca comunitária e centro cultural, criando uma experiência em que comida, literatura, patrimônio e convivência comunitária se encontram. A iniciativa integra a economia criativa local e amplia a experiência do festival para além da programação formal, convidando o visitante a conhecer São Bento do Sapucaí também por seus sabores, seus produtores e suas histórias.
Assim, entre uma mesa literária, uma apresentação musical e um cortejo pelas ruas, o público pode experimentar uma gastronomia que preserva receitas e modos de fazer transmitidos entre gerações e, ao mesmo tempo, incorpora novos produtores e ingredientes da região.
Um festival feito pelo território
A FLIPES nasceu em 2007, a partir de iniciativas culturais ligadas ao território, e consolidou-se como festa literária em 2012. Desde então, tornou-se uma plataforma de formação, circulação e valorização da produção artística da Serra da Mantiqueira. Em 2025, foi um dos 15 projetos selecionados pelo Edital ProAC de Festivais, entre mais de mil inscritos no estado de São Paulo.
A festa recebe, em média, 2.500 pessoas por edição, já alcançou mais de 25 mil visitantes acumulados, reúne entre 50 e 120 artistas por edição e envolve municípios da região. O impacto ultrapassa a programação cultural e alcança turismo, hospedagem, alimentação, comércio, artesanato, editoras independentes e outros setores da economia criativa.
Esquenta: a FLIPES começa antes da FLIPES
A programação de 2026 também começa antes da abertura oficial. Como parte do Esquenta da FLIPES, o Casarão da Memória promove oficinas gratuitas de danças brasileiras, teatro literário infantojuvenil e canto. As atividades aproximam literatura, oralidade, corpo, música e cultura popular e reforçam uma característica central do projeto: a formação cultural acontece durante todo o ano.
Mais do que preparar o público para a festa, o Esquenta mostra que a FLIPES não se resume a nove dias de programação. O festival mantém uma atuação permanente na cidade, fortalecendo artistas, educadores, leitores e produtores culturais locais e fazendo da cultura uma experiência cotidiana.
No fim, é justamente essa mistura que define a FLIPES: uma festa literária em que o território não serve apenas de cenário para os livros ele próprio vira narrativa. A Serra da Mantiqueira entra na programação com suas histórias, seus artistas, suas crianças, seus mestres, suas comidas, suas paisagens e suas tradições. E a literatura funciona como fio condutor para reunir tudo isso.
Anote em sua agenda
14ª Festa Literária do Interior Paulista Eugênia Sereno – FLIPES 2026
Pré-abertura: 12 de setembro de 2026
Festival: 13 a 20 de setembro de 2026
Local: São Bento do Sapucaí (SP)
Entrada: gratuita.
PROGRAMAÇÃO FLIPES 2026
Entrada: Gratuita.
SÁBADO – PRÉ-ABERTURA | 12 DE SETEMBRO
10h – Cortejinho – Com a Cia Severina Pinda.
14h – Lançamento de livro – Com Maria Cininha.
16h – Contação de histórias – Com a Cia Severina, no Casarão da Memória.
17h – Com o Teatro Realejo.
18h – Intervenção pelas ruas – Abertura da exposição “Meu Mundo de Papel” – Com Eunice Copy.
20h – Jazzida – Apresentação Poesia Arcaica.
DOMINGO | 13 DE SETEMBRO
10h – Abertura e cortejos – Maracatu Mantiqueira, Folia de Reis, Sucatas Ambulantes e Teatro Realejo Maria Clara, em intervenção pelas ruas da cidade.
13h – Lançamento do livro “Poesia” – Com Célio Turino.
14h – Maratona de Histórias – “Contando o Contado”, 4ª edição – Com Cia Mapinguary, Lucas Bernoldi, Cia Severina, Teatro Realejo e Fio da Meada.
19h – Apresentação – Com Zenilda Lua e Marcelo.
SEGUNDA-FEIRA | 14 DE SETEMBRO
9h – Contação de histórias – Circulação pelas escolas rurais, com a Cia Tayane Porto.
11h – Intervenção – Com o Teatro Realejo, no Largo da Matriz.
14h – Filme e Prosa – Com o escritor e cineasta Ernesto e a Produtora de Cinema Oratório.
18h – Encontro com Bel Santos Mayer – Debate sobre biblioteca comunitária, sustentabilidade e IBEAC, com mediação de Giovanna Santana, superintendente técnica.
20h – Apresentações artísticas – Culminância das Ações Formativas em Arte.
TERÇA-FEIRA | 15 DE SETEMBRO
10h – Oficina de estandarte literário – Com Dulce Marchioro.
14h – Teatro de Bonecos de Tiradentes – (Informações sobre a apresentação a confirmar.)
18h – Exibição do filme “BDL – Boca de Lobo” e bate-papo – Com participação de diretor de cinema e Rogério Nunes, da Produção Karma Tique.
21h – Recital – Músicas de cinema.
QUARTA-FEIRA | 16 DE SETEMBRO
14h – Oficina “Livro 12 Dias com a Minha Avó” – Com Cris Eich.
17h – Lançamento de livro – Com Tarcísio Bregalda, com mediação de Severino Antonio.
18h – Palestra com Nelson Screnci – Sobre livro-objeto, livro de artista e exposição de livros, com Joubert.
19h – Lançamento de livro – Com José Rui, com mediação de Benilson Toniolo.
20h – Fandango caiçara – Apresentação do Grupo Quebra Chiquinha.
QUINTA-FEIRA | 17 DE SETEMBRO
Visitação de escolas – Horário a confirmar.
10h – Contação de histórias – Com Izildinha.
14h – Cadernos Negros – Com Cosme.
18h – Encontro PELLLB – Plano de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas PELLLB, com Participação de representantes das Bibliotecas RA e do SJC debate sobre direito à leitura.
21h – Show – Com Marcel.
SEXTA-FEIRA | 18 DE SETEMBRO
10h – Oficina de bordado – Com Maria Cipriano.
14h – Encontro com André Kondo – Conversa sobre o Prêmio Jabuti 2025, o livro O Silêncio de Kazuki e o relacionamento entre pai e filho.
17h – Encontro com Vania Coelho.
18h – Lançamento do livro “Goela Seca” – Com Jô Freitas.
20h30 – Show “Carolina Maria de Jesus” – Com Socorro Lira.
SÁBADO | 19 DE SETEMBRO
11h – Projeto Mesa Ancestral – Atividade dedicada à comida afetiva.
14h – Lançamento do livro “Cultura Popular no Vale” – Com Jaqueline.
14h – Show “Brinca Brasil” – Com a Cia Bola de Meia.
16h – Encontro com André Gravatá.
19h – Encontro com Lilia Guerra.
20h30 – Show – Com Lenna Bahule.
DOMINGO | 20 DE SETEMBRO
10h – Roda de conversa “Será que meu filho, minha filha é escritor ou escritora?” – Com a Editora Amarelinha e escritores infantojuvenis, em uma atividade voltada às crianças.
14h – Mesa sobre ilustração – Com Cris Eich.
16h – Encerramento – Samba de Marias – Tributo às mulheres sambistas.

Gilberto Vieira de Sousa é Jornalista (MTB 0079103/SP), Técnico em Sistemas de TV Digital, Fotografo Amador, Radioamador, idealizador e administrador dos sites GibaNet.com, AssessoriaAnimal.com.br e cotajuridica.com.br, jornalista no Programa Lira em Pauta, Correspondente internacional na Rádio Vai Vai Brasile Italia FM, jornalista no Programa Meio Ambiente com Renata Franco.
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