Professor Ed Garcia: “O trabalho de motivação deve continuar durante o Ensino e Aprendizagem”

Entrevista exclusiva: Jornalistas Nelson Valente e Gilberto Vieira de Sousa

O Professor Ed Garcia é Bacharel em Matemática pela UFG. Ensina Matemática desde 1988. Em 2003 sofreu uma doença neurológica degenerativa que o deixou paraplégico. Em 2009 por uma questão de contingência se afastou-se definitivamente da sala de aula e, desde então passou a ministrar aulas particulares de Matemática somente. Foi a alternativa que o possibilitou ser dono do seu tempo para se dedicar a sua Fisioterapia também. Atende principalmente alunos do Ensino Fundamental e Médio.

O Professor Ed Garcia é Bacharel em Matemática. Ensina Matemática desde 1988. Em 2003 sofreu uma doença neurológica degenerativa que o deixou paraplégico
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

1) Como o senhor se especializou em recuperar alunos em aula particular de Matemática, o que difere o aluno de aula particular do aluno regular em sala de aula?

Quem procura aula particular são alunos com dificuldade que querem ou precisam aprender Matemática, nem que seja o suficiente para passar numa prova. A aula particular é diferente de ministrar aula numa Classe: os alunos vão para aula particular com um compromisso. Em geral os alunos regulares estão descompromissados, e isso faz toda diferença. Acredito que esse descompromisso pode ser minimizado com um trabalho estruturado de motivação: o jovem precisa de uma motivação tangível para agir.

Antes já era um professor peculiar, porque dava especial atenção para quem queria aprender e tinha dificuldade, provavelmente porque também tive muita dificuldade no meu tempo de aprendizagem. Infelizmente e por motivos vários, quase sempre professores dão aula somente para quem consegue acompanhá-los.

Assim, acabei de certa forma me especializando em recuperar alunos com dificuldade. Em comum esses alunos têm deficiência de atenção, pouca capacidade de raciocínio, baixa autoestima e quase nenhuma familiaridade com números e suas operações básicas… não sabem sequer tabuada! Muitos alunos chegam com o que se chama Ansiedade Matemática, alguns atravessando o nível da fobia mesmo. Nesses casos o primeiro passo é ajudá-los a se convencerem de que são capazes, de que a Matemática lhes são acessíveis. Não existe atenção sem interesse. E ninguém aprende se não quiser aprender. Logo, antes de ensinar pra valer, faz-se necessário um trabalho de motivação para o aluno tomar a decisão da sua vida: querer aprender. Existem os alunos auto-motivados, e são no máximo 5%. Estima-se que no máximo 5% das pessoas possuem iniciativa própria. Seria displicência, omissão, abandonar os demais 95% à própria sorte. Imagino que o professor exista para mostrar o caminho para quem está perdido também.

E o trabalho de motivação deve continuar durante o Ensino e Aprendizagem.

Para auxiliar no trabalho de recuperação de alunos de Matemática, desenvolvi o MétodoQI+ para melhorar a atenção, capacidade de raciocínio e familiarizar o interessado com números. Na medida em que o método se desenvolve, os alunos se sentem capazes, melhora sua autoestima e confiança também. Esse método desenvolve o que se chama de Senso de Números, uma boa intuição sobre números e suas relações.

O Senso de Números não pode ser ensinado, ele é percebido, ele acontece. O MétodoQI+ desenvolve-se com o apoio de um aplicativo de celular seguindo minhas orientações, e os alunos gostam! É impressionante o desenvolvimento de um aluno, apenas melhorando um pouco sua atenção, concentração e capacidade de raciocínio. Quem aprende a raciocinar com
números, raciocina com quase tudo na vida.

O Professor Ed Garcia é Bacharel em Matemática. Ensina Matemática desde 1988. Em 2003 sofreu uma doença neurológica degenerativa que o deixou paraplégico
Imagem de Miloslav Ofúkaný por Pixabay

2) Quais são as características dos seus alunos bem-sucedidos?

São várias características que podem levar um aluno a ser bem-sucedido. Entre elas destaco: querer e estar decido a aprender; curiosidade; persistência; força e capacidade de dedicar pelo menos 50 minutos diários ao estudo com uma boa regularidade; paciência (aprender Matemática é um processo de amadurecimento, e se amadurece com o tempo); ter um objetivo; querer ficar mais inteligente.

Aprender Matemática é quase como aprender um instrumento musical. Enquanto não se aprende a tocar, tem que ensaiar quase todos os dias.

Segundo o Prof Pierluigi Piazzi, a inteligência é uma escada, que temos a obrigação de subir no pelo menos 1 degrau por dia. E a Matemática é uma ótima ginástica cerebral também. (Subindo 1 degrau por dia, em 1 ano são quantos degraus? E tem gente que passa anos se subir um degrau da inteligência sequer.)

3) Como você prepara as suas aulas de Matemática?

Conforme a dinâmica da turma ou do aluno, respeitando seu ritmo e seu tempo de aprendizagem. Analiso o nível dos alunos, analiso o pré-requisito de uma nova matéria, e sempre que necessário ministro ou reviso o pré-requisito. Muitas vezes o trabalho maior é criar uma maneira de ensinar o conteúdo numa linguagem e num nível que o aluno possa compreender. Tenho sempre a preocupação em aumentar a dificuldade gradativamente. Se não aumentar a dificuldade o aluno não desenvolve. Se aumentar demais, de uma vez, e a questão se torna inacessível, pode desanimar o aluno e no extremo levar a perdê-lo.

4) Por que você se interessou por essa disciplina?

Não tem bem um porquê. Aconteceu! Lembro que tinha muita dificuldade. Não percebia as coisas. Lembro daquelas operações com frações no quadro do meu 4º ano primário e não fazer nem ideia do que se tratava, enquanto alguns colegas iam no quadro, resolviam e voltavam todo sorridentes para seus lugares depois dos elogios da Professora Yara. Passei, e não sei como fui passando até ficar de recuperação especial em Matemática na 6ª série do 1º grau. Ou tirava 8 na prova do Prof. Tião ou era bomba! Lembro do aperto do papai… e no apuro passei dezembro e janeiro estudando sozinho… Tirei 9 na recuperação… por um triz: Passei! Hoje entendo que eu não sabia por que não estudava e não fazia as tarefas de casa: fazer a tarefa de casa é o mínimo. Mas enfim, foi bom, porque algo que parecia intransponível de repente tornou-se possível: descobri que eu era capaz de entender e aprender. Passei a gostar de Matemática, a estudar Matemática, e quanto mais eu conhecia e entrava em contato com suas belezas cativantes, com sua coerência objetiva, mais me apaixonava. Certo é que as maravilhas do mundo moderno como edifícios, pontes, automóveis, navios, aviões, computadores, celulares, etc… nada disso seria possível sem a Matemática. A Matemática está na base de tudo, e na base da matemática está o número.

O Professor Ed Garcia é Bacharel em Matemática. Ensina Matemática desde 1988. Em 2003 sofreu uma doença neurológica degenerativa que o deixou paraplégico
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5) Quais são as suas expectativas quanto aos alunos?

Que eles aprendam! Que eles aprendam, se desenvolvam, evoluam e me ultrapassem. Ora, dou o meu tempo a eles, e o mínimo que espero é atenção e interesse.

6) Que recursos você recomenda se eu quiser aprender mais sobre o conteúdo da Matemática?

Para reforçar a base, recomendo o site YouCubed (https://www.youcubed.org/pt-br). Ali está disponível (em português) uma abordagem mais criativa e lúdica do Ensino Fundamental de Matemática.
No Brasil temos a Coleção Fundamentos de Matemática Elementar da Editora Atual. É ótima e completa!
Mais do que isso é fazer um curso superior de Matemática: exige tempo, dedicação e vocação.

7) Você vê grandes diferenças na educação Matemática das crianças americanas, e das crianças brasileiras?  Existe algo que te chame mais atenção em relação às diferenças?

Aparentemente, em tese, não há grandes diferenças. Matematicamente falando, a diferença deve estar no diferencial, e o diferencial é um infinitésimo. Mas qual o diferencial afinal? (risos)
Em geral, como no Brasil, os EUA apresentam a Matemática processualmente, como um conjunto de etapas para aprender, memorizar e aplicar (Salutar perguntar: estão aprendendo assim?). E as semelhanças não param por aí. Nos EUA existe uma anedota qualificando/criticando seu currículo de Matemática para seu ensino Médio e Fundamental: “A mile wide and inch deeper”, que grosso modo podemos traduzir em: “1 km de largura e 1 cm de profundidade”. Ou seja, essa crítica lá vale aqui também, e não só para a Matemática, para todas as disciplinas. Como está nosso (ambos) Sistema de Ensino tende a fazer de todo aluno um disperso superficial. Obriga os alunos a pairar sobre todas as coisas, e pela variedade os impede de penetrar com profundidade em qualquer assunto. E por isso também não reforça a BASE! Deste modo, contribui sobremaneira para formação de adultos superficiais. Isso é bom para a Sociedade?
Entretanto no PISA/2015 os EUA ocuparam o 36º lugar, e o Brasil 66º, entre 70 países. Embora os americanos não estejam contentes com seu ranking (e eles estão tomando providências), a distância do Brasil para eles é muito grande. Como desconheço o processo de Ensino de Matemática nos EUA na prática, minha hipótese é que seus alunos além de terem um maior compromisso, possuem um trabalho de base mais reforçado. A maneira como o currículo e a carga horária são distribuídos e o modo como a matéria é apresentada, podem ser diferenciais também. E a questão de ouro (dos americanos também) é como transformar o desempenho em sala de aula em boas colocações nos Testes de Aptidão Internacionais. Certamente os Asiáticos têm uma resposta, porque sempre alcançam as primeiras posições, o que motiva investigar como eles ensinam e aprendem Matemática. Seria uma pesquisa interessante, que pode levar a resultados politicamente incorretos do tipo: o QI dos asiáticos é maior; que a memória deles é melhor; que o nível de atenção, concentração e comprometimento deles é maior, etc. Daí se pesquisaria o porquê. Presumo que por questões linguísticas e culturais, mas nada que não possa ser compensado com trabalho sério, amor e dedicação.

8) Que mudanças são necessárias aos Cursos de Formação de Professores no Brasil, seja em nível de Graduação ou de Pós-Graduação, precisam ter, de tal maneira a garantir a formação de um Professor-Pesquisador participante na vida Matemática de seus alunos?

Afastar os sindicatos e ZERAR a ideologia; menos problematização, menos teoria, mais prática. Ensinar e aprender é sãos atividades ativas e práticas.
Tem que profissionalizar a formação de Professores: Não pode ser formação de militantes.
Fato é que os alunos estão chegando sem base no curso superior. Antes de fazer o curso mesmo, eles têm que passar por um nivelamento, infelizmente. Em particular no Brasil, é histórico que os piores alunos (antes do vestibular, hoje do ENEM) vão para o curso de Licenciatura: é uma conjuntura. O que esperar do nível desses Professores?
O pré-requisito para ser um Professor é amar o seu trabalho e seu alunos. É fazer seu trabalho com amor. E os cursos de formação de Professores tem que transmitir esse amor.

9) Há uma resistência e preconceito entre Professores de Matemática que se concentram unicamente no aprofundamento do conteúdo matemático e aqueles que se ocupam de investigar e problematizar as próprias práticas pedagógicas. Em sua opinião, quais poderiam ser as raízes dessas barreiras que se constroem e como vencê-las?

Ensinar e aprender são atividades bastante práticas. E o mundo já rodou o suficiente para se saber o que dá certo. Esse negócio de ficar problematizando e inventando teoria é desculpa para não agir e preguiça de ensinar.
Antes de tudo, lecionar é uma profissão que requer amor. É preciso ter bom senso, e é preciso reconhecer o fato de que todos alunos possuem lacunas cognitiva, uns mais outros menos, e motivá-los a se superarem. Evidentemente, o tratamento para uma turma de Ensino Fundamental, Médio, Graduação, Mestrado e Doutorado são diferentes. Cada turma, cada aluno tem sua dinâmica. A princípio o bom senso requer que o professor se adapte à turma, ao aluno. Mas chega o momento em que o aluno tem que se adaptar a turma e a turma ao professor: questão de maturidade, e aprender é um processo de amadurecimento também.
Na base principalmente, o aprofundamento tem que ser progressivo e gradativo. Não tem outro jeito, sob pena de perder o aluno. Cada aluno tem seu ritmo, seu tempo e sua história de vida, e é preciso respeitar.
O aprofundamento da matéria não depende do gosto do Professor. Depende sim dos objetivos da disciplina e da dinâmica da turma. É preciso ficar claro: uma coisa é o aluno não dar conta de acompanhar. Outra coisa é o aluno não querer acompanhar. É preciso ter discernimento separar esses casos.

O Professor Ed Garcia é Bacharel em Matemática. Ensina Matemática desde 1988. Em 2003 sofreu uma doença neurológica degenerativa que o deixou paraplégico
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10) Considera a Matemática uma disciplina importante?

Absolutamente. Veja bem, a obra Confissões do Santo Agostinho escrita nos anos 400 d.c. relata que a Aritmética e a Geometria já eram ensinadas naquela época. Na idade média o Sistema de Ensino era baseado no Trivium e Quadrivium. A muito grosso modo pode-se comparar o Trivium ao nosso Ensino Fundamental, e o Quadrivium ao nosso Ensino Superior. O Trivium incluía as disciplinas Lógica (Dialética inclusa), Gramática e Retórica. Por outro lado, o Quadrivium incluía a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia. (Interessante notar que a pessoa só aprendia Matemática quando supostamente dominava a Linguagem.). O que quero dizer? Isto comprova que os conceitos matemáticos fizeram parte da formação do imaginário dos grandes pensadores e escritores da Humanidade, maioria daqueles tempos. E como já disse, as maravilhas do mundo moderno como edifícios, pontes, automóveis, navios, aviões, computadores, celulares, etc… nada disso seria possível sem a Matemática. A Matemática está na base de tudo, e na base da Matemática está o número. E acrescento, quem conhece os Fundamentos da Matemática, tem facilidade para lidar com dinheiro e dificilmente é passado para trás em algum negócio. Dinheiro também é números (risos).

11) Por que a Matemática é uma das disciplinas que possui um dos maiores índices de alunos reprovados no fechamento do ano letivo, considerando porém, que não é a única disciplina a reprová-los?

É um conjunto de fatores, alguns dos quais já enumerados ao longo dessa entrevista. Tentarei abortar alguns fatores que considero críticos dentro da minha experiência como aluno e professor. Na Matemática Elementar Fundamental, os assuntos são encadeados, numa relação de dependência com o assunto anterior, até formar uma base cognitiva sólida de onde pode-se ramificar com uma certa independência. Não tem como o aluno aprender, geometria, álgebra ou funções sem saber números, por exemplo. O objetivo do Ensino Fundamental tem que ser formar essa base cognitiva inicial, solidamente.
Primeiro, sei que existe em alguns estados ou municípios uma determinação política de não reprovar os alunos. Não sei como está isso aí, mas isto é um crime e não é solução! E cria-se um problemão que vai estourar no colo do aluno lá na frente. Ou seja, o único prejudicado acaba sendo o aluno mesmo. Quem fica prejudicado em Matemática fica prejudicado em toda disciplina que depende dela. E se insistir nisso aí o que continuaremos ter são alunos com diplomas do Ensino Médio cheios de lacunas cognitivas. Isso é bom para a Sociedade?
A Matemática exige o raciocínio do tipo lógico abstrato, e o raciocínio lógico abstrato é difícil para maioria. Difícil, principalmente porque não foi devidamente trabalhado. Esse raciocínio se desenvolve na infância submetendo a criança a brinquedos quebra-cabeças e desafio mentais os mais variados possíveis. É claro que o nível dos quebra-cabeças tem que ser compatível com a idade da criança, e aumentado gradativa e progressivamente, e a criança vai aprendendo por associação e analogia (fazendo conexões neurais). Jogar xadrez, damas ou Sudoku é ótimo para os neurônios e para desenvolver raciocínio lógico abstrato, por exemplo. Nesse sentido creio que a adoção de uma disciplina de Desafios Mentais pode vir a ser um grande diferencial. Pelo bem da mente do Brasileiro, o xadrez deveria ser mais incentivado, com campeonatos municipais, estaduais e nacional e uma boa premiação em dinheiro (Apenas uma ideia!). Sonho com o Xadrez sendo uma disciplina obrigatória no Ensino Fundamental.
Como dito anteriormente, outra questão que agrava os índices de reprovações são currículos, conteúdos programáticos com quilômetros de largura e centímetros de profundidade. Notadamente essa é uma das causas primárias do desânimo dos alunos, em todas as disciplinas. É humanamente impossível concluir o Ensino Médio SABENDO aquilo tudo. 80% do que foi “estudado” no Ensino Médio e Fundamental será esquecido em no máximo 5 anos após sua conclusão (Na verdade é mais grave, porque esquece-se logo depois da prova, porque quando se estuda, estuda-se para prova, não para aprender!). Arrisco dizer que pelo menos 50% do que se aprende no Ensino Médio e Fundamental é supérfluo, é descartável, e não acrescenta nada na vida de ninguém: Desperdício de tempo e dinheiro!
É preciso entender e ter coragem para acreditar que se o aluno for bem fundamentado em algumas áreas chaves, como Lógica, Matemática e Linguagem ele se dará bem em qualquer área que vier a escolher. Veja por exemplo as disciplinas do Trivium e Quadrivium descritas anteriormente, e aprendamos com a sabedoria dos antigos. É o velho dilema da quantidade versus qualidade.
Outro fator é que culturalmente, o aluno Brasileiro não gosta de ler, de estudar, e em geral não está comprometido com os estudos (Uma coisa é frequentar a escola, outra coisa é assistir aula, outra coisa ainda é estudar). Certamente porque não enxerga motivos tangíveis para se comprometer e investir seu tempo e energia pessoal nessas atividades. Essa situação requer um trabalho de motivação e de esclarecimento estruturados para ajudar o aluno a responder a simples questão: Por que estudar?

 

Contatos do Professor Ed Garcia:

E-mail: EdGaarcia@gmail.com

Twitter: @EdGaarcia

 

O Professor Ed Garcia é Bacharel em Matemática. Ensina Matemática desde 1988. Em 2003 sofreu uma doença neurológica degenerativa que o deixou paraplégico
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