O Pelotense: História, Mitos e Verdades sobre Pelotas RS
Pelotas, no Rio Grande do Sul, é uma cidade rica em história e cultura, conhecida por sua arquitetura colonial, doces tradicionais e papel econômico no sul do Brasil. No entanto, um boato persistente sobre a “fama de gay” dos pelotenses circula há séculos, originado em preconceitos e rivalidades regionais. Neste artigo, exploramos com detalhes a origem dessa lenda urbana, incluindo datas, nomes, eventos históricos e contextos sociais. Descubra como a prosperidade das charqueadas, a educação europeia e a neutralidade em revoluções moldaram essa narrativa, e entenda por que Pelotas é, na realidade, um polo regional de excelência.

A História de Pelotas e o Auge das Charqueadas
Pelotas RS possui uma trajetória fascinante que remonta ao século XVIII, quando a região sul do Brasil era disputada por portugueses e espanhóis. A cidade se destacou economicamente graças à produção de charque, tornando-se um centro de riqueza e influência.
Fundação e Desenvolvimento Inicial de Pelotas
A história de Pelotas começa oficialmente em 7 de julho de 1812, data de sua emancipação como vila, embora os primeiros assentamentos datem de 1758, com a doação de terras a colonos portugueses. O nome “Pelotas” deriva do arroio homônimo, usado para transporte de mercadorias. Inicialmente povoada por indígenas Minuanos e Charruas, a área atraiu imigrantes portugueses, açorianos e, mais tarde, alemães, italianos e pomeranos, enriquecendo sua diversidade cultural.
No final do século XVIII, em 1780, surgiram as primeiras charqueadas – fábricas para salgar e secar carne bovina. Figuras como o português José Pinto Martins fundaram as primeiras unidades, impulsionando a economia local. Pelotas se beneficiou da proximidade com a Lagoa dos Patos e o Rio São Gonçalo, facilitando o escoamento de produtos para o resto do Brasil e exterior.
O Ciclo do Charque no Século XIX: Prosperidade e Barões
O auge das charqueadas ocorreu entre 1850 e 1890, quando Pelotas produzia até 80% do charque consumido no Império Brasileiro. Essa indústria gerou fortunas para famílias como os Assumpção, os Gonçalves Chaves e os Simões Lopes, que receberam títulos de “barões do charque” do Imperador Dom Pedro II em reconhecimento à lealdade e contribuições econômicas.
Antônio José Gonçalves Chaves, por exemplo, foi um dos pioneiros, fundando charqueadas em 1820. A riqueza permitiu a construção de palacetes neoclássicos e barrocos, como o Museu da Baronesa (construído em 1863), que hoje preserva essa herança. Em 1880, Pelotas era a segunda cidade mais rica do Rio Grande do Sul, atrás apenas de Porto Alegre, com uma economia que rivalizava com capitais europeias.

A Educação Europeia e a Refinada Elite Pelotense
A prosperidade das charqueadas incentivou investimentos em educação, mas isso também alimentou invejas e boatos. Os pelotenses valorizavam o conhecimento como ferramenta de progresso, como destacado em relatos históricos.
Envio de Filhos à Europa para Estudos
No final do século XIX, entre 1870 e 1900, barões como os da família Assumpção enviaram seus filhos para universidades na França (Sorbonne), Inglaterra (Oxford) e Portugal (Coimbra). Nomes como Leopoldo Antunes Maciel, educado em Paris por volta de 1885, exemplificam essa prática. O objetivo era adquirir conhecimentos em administração, direito e artes, para gerir melhor os negócios familiares.
Retorno e Mudanças Culturais: Refinamento e Diferenças
Ao retornarem, esses jovens traziam hábitos refinados: vestiam camisas de gola alta, cachecóis de seda, luvas de couro, coletes coloridos de lã e chapéus elegantes, inspirados na moda parisiense. Adotavam dietas sofisticadas, com vinhos franceses e queijos importados, contrastando com os costumes rústicos dos gaúchos interioranos. Era comum ouvi-los conversando em francês ou inglês em praças como a Coronel Pedro Osório (fundada em 1850).
Essa sofisticação cultural, aliada a eventos como a fundação do Theatro Sete de Abril em 1833, posicionou Pelotas como um centro de artes e educação. No entanto, em uma sociedade machista e rural, esses traços foram interpretados como “afeminados” por rivais de cidades vizinhas, como Rio Grande e Bagé.

Neutralidade nas Revoluções e Conflitos: Fonte de Rancor Regional
Pelotas manteve uma postura pacífica em meio a turbulências, priorizando negócios sobre guerras, o que intensificou rivalidades.
Revolução Farroupilha (1835-1845): Lealdade ao Império
Durante a Revolução Farroupilha, liderada por Bento Gonçalves da Silva, Pelotas permaneceu fiel ao Império Brasileiro. Forneceu charque para as tropas imperiais, comandadas por Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias). Essa neutralidade, decidida por líderes como o Barão de Jacuí (José Antônio de Oliveira), evitou destruições, mas gerou ressentimento entre farroupilhas derrotados. A guerra deixou mais de 3.000 mortos no RS, mas Pelotas prosperou, exportando charque para o Nordeste brasileiro.
Outros Conflitos Regionais: Da Federalista à Revolução de 1930
Na Revolução Federalista (1893-1895), Pelotas novamente evitou combates diretos, focando no comércio. Lideranças como Gaspar Silveira Martins (maragatos) e Júlio de Castilhos (chimangos) dividiram o RS, resultando em 10.000 mortes. Pelotas, distante da fronteira, manteve a paz. Já na Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, a cidade viu tropas passarem, mas sem engajamento massivo. Esses episódios reforçaram a imagem de “cidade pacífica”, mas também de “covarde” ou “efeminada” aos olhos de vizinhos belicosos.
O Surgimento do Boato e o Preconceito: De Lenda Urbana a Folclore
O boato sobre a “fama de gay” surgiu por volta de 1890, disseminado por jornais satíricos e rivais econômicos. Relatos como os do cronista Lino Tavares (comentando em 2011) indicam que a educação refinada foi confundida com homossexualidade em uma era preconceituosa. Estudos como o de Mário Osório Magalhães (1993) apontam que a riqueza pelotense gerou inveja, transformando virtudes em defeitos. Na década de 1950, perseguições policiais visaram “limpar” a imagem, conforme registros do jornal Triz (1976). Hoje, essa fama é vista como folclore, combatida por movimentos LGBTQ+ que reivindicam Pelotas como “capital gay” de forma positiva.

Pelotas Hoje: Um Polo Regional de Excelência no Rio Grande do Sul
Na realidade, Pelotas é uma cidade polo no sul do RS, com cerca de 340.000 habitantes, destacando-se em educação, cultura e economia. Longe dos mitos, é um exemplo de qualidade de vida e progresso.
Virtudes dos Habitantes: Hospitalidade e Cultura
Os pelotenses são conhecidos por sua hospitalidade, refinamento cultural e dedicação ao trabalho. Influenciados por etnias diversas (portugueses, alemães, africanos), valorizam a educação e a arte. Figuras como a atriz Glória Menezes (nascida em 1934 em Pelotas) e o escritor Vitor Ramil orgulham-se de suas raízes. Os moradores são acolhedores, com forte senso comunitário, participando de festas como a Fenadoce (desde 1986), que celebra a doçaria local.
Atrações e Pontos Positivos da Cidade: Turismo, Economia e Qualidade de Vida
Pelotas é a Capital Nacional do Doce (lei de 2024), com fábricas artesanais produzindo quindim e pastéis de Santa Clara, gerando empregos e turismo. A economia diversificada inclui agronegócio (arroz e pecuária), comércio (Pelotas Shopping) e serviços, com PIB per capita de R$ 27.000. Como polo educacional, abriga a Universidade Federal de Pelotas (UFPel, fundada em 1969) e a Universidade Católica de Pelotas (UCPEL, 1960), atraindo 20.000 estudantes anualmente.
Atrações turísticas incluem o Centro Histórico (com casarões do século XIX), o Museu do Doce, o Parque da Baronesa, a Praia do Laranjal (às margens da Lagoa dos Patos) e trilhas rurais com cachoeiras. A cidade oferece saúde acessível (Hospital Universitário da UFPel), segurança e lazer, como o Theatro Guarany (1884). Com clima ameno e agenda cultural (festivais de música e arte), Pelotas proporciona tranquilidade e oportunidades, sendo classificada como categoria A no Mapa do Turismo Brasileiro (2024). Visite e descubra por que Pelotas é sinônimo de encanto e prosperidade!

Gilberto Vieira de Sousa é Jornalista (MTB 0079103/SP), Técnico em Sistemas de TV Digital, Fotografo Amador, Radioamador, idealizador e administrador dos sites GibaNet.com, AssessoriaAnimal.com.br e cotajuridica.com.br, jornalista no Programa Lira em Pauta, Correspondente internacional na Rádio Vai Vai Brasile Italia FM, jornalista no Programa Meio Ambiente com Renata Franco.
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Foi de grande valia teu esclarecimento. Obrigado!
Obriga Giba por nos passar um pouco da nossa cultura Farropilha e agraciada com os comentários do Lino Tavares, mesmo sendo informações da área futebolística na qual não me enquadro, aprovado !
abraço
Rose*
Como colunista do Diário Popular, de Pelotas, devo testemunhar que esse esclarecimento do Giba é lídima expressão da verdade e o faz merecedor do título de “Cidadão Pelotense”, pela grandeza de propósito em tornar público esse texto que contribui para reparar um grande injustiça cometida contra uma das cidades mais civilizadas e progessistas da região sul gaúcha. Para quem não sabe, Pelotas é importante polo educacional e industrial , possuindo as melhores fábricas de doces do Brasil. É possuidora de larga tradição no esporte, principalmente o futebol, representado pelos clubes Pelotas, Brasil e Farroupilha. A atriz Glória Menezes é pelotense e se orgulha muito de sua terra natal. Uma história do futebol de Pelotas: Na década de 1950, o Brasil possuía um ” cracaço” de Bola chamado Joaquinzinho. De olho no craque, o Santos ofereceu um de seus atletas juvenis e uma quantia em dinheiro ao Brasil, para levar Joaquinzinho para a Vila Belmiro. mas o clube peotense rejeitou a proposta e vendeu o passe do atleta para o Internacional, de Porto Alegre. Sabem quem era o juvenil do Santos que o Brasil, de Pelotas, rejeitou na troca por Joaquinzinho ? Edson Arantes do Nascimento, o mesmo Pelé que viria a se consgrar na Copa de 1958, na Suécia, quando conquistamos nosso primeiro título mundial. Imagine que, se o Brasil tivesse fechado negócio com o Santos, na ocasião, talvez hoje fosse aquilo que acabou se tornando o clube santista: um dos mais famosos do mundo. Que coisa, hem !
Puxa, Giba, obrigada pela aulinha de História. É uma vergonha, mas conheço mais História Universal do que a nossa (gaúcha).
abraços
Atena, não é vergonha nenhuma não conhecer parte da história, afinal de contas, nossa história é muito rica e é muito dificil conhecer todos os seus detalhes.
Um grande abraço