As engrenagens do poder e a perpetuação do Sistema na política brasileira

Lino Tavares

Quem pensa que o Lula mudou para pior está redondamente enganado.

O Lula “vencedor” deste 25 de outubro de 2026 é aquele mesmo indivíduo de barba preta que, no início deste século, tornou-se presidente do Brasil, representando o operário de escassa cultura que viria a resgatar a credibilidade da classe política profundamente abalada pelo impeachment de Collor e pelo segundo mandato de FHC — este último vindo a reboque da reeleição conquistada pelo próprio beneficiário, ao custo da famigerada troca de favores.

Os menos atentos só descobriram que Lula era um câncer surgido no tecido social brasileiro quando estourou o escândalo do mensalão, em seu primeiro mandato, ocasião em que ele declarou não saber o que estava acontecendo.

Na época, os deputados fingiram acreditar em sua “inocência” e deixaram de cassar o seu mandato. Deveriam tê-lo feito, pois, ainda que fosse inocente como dizia, revelava-se incompetente para o exercício do cargo por permitir, por omissão, que algo tão grave ocorresse debaixo de seu nariz sem nada notar.

Se o parlamento não cumpriu o seu papel nesse particular e o Poder Judiciário nada fez a respeito, as Forças Armadas deveriam ter deposto seu chefe supremo e convocado novas eleições para que um novo mandatário assumisse e restabelecesse a ordem institucional no país.

As engrenagens do poder e a perpetuação do Sistema na política brasileira

Em vez disso, o governante continuou no poder e, como se não bastasse, reelegeu-se, sabe-se lá como, para um segundo mandato.

Sentindo-se plenamente à vontade para agir com impunidade no exercício do poder, Lula deu-se ao luxo de indicar como sucessora a ex-guerrilheira Dilma Rousseff. Ela foi eleita presidente do país, reeleita de forma controversa e, finalmente, destituída em razão de sua evidente inaptidão administrativa.

Durante o governo de transição de Michel Temer, o país vivenciou um breve período de sobriedade institucional. Em seguida, a Operação Lava Jato reuniu elementos probatórios que resultaram na condenação de Lula em três instâncias judiciais e na sua consequente prisão.

Com a chegada do pleito de 2018, o principal expoente do PT ficou impedido de concorrer. Diante desse cenário, Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad, visto por muitos como um candidato de sacrifício, cuja eventual vitória inviabilizaria os planos futuros de Lula de disputar a presidência assim que suas sentenças fossem anuladas.

Em 2022, o ex-presidente retornou à disputa eleitoral e derrotou Bolsonaro, impedindo-o de exercer um segundo mandato.

Posteriormente, diante do risco representado pela continuidade da presença política de Bolsonaro, a Justiça Eleitoral declarou sua inelegibilidade e, em desdobramentos seguintes, o Supremo Tribunal Federal impôs-lhe pesadas penas judiciais com base nas acusações de tentativa de ruptura institucional.

Jair Bolsonaro ainda articulou a candidatura de seu primogênito, Flávio, para enfrentar o grupo governista, mas a iniciativa mostrou-se ineficaz, e a situação consolidou mais uma vitória nas urnas.

Resta, assim, a percepção de que a atual conjuntura política e institucional do Brasil parece impermeável a mudanças convencionais, deixando muitos na expectativa de uma intervenção das Forças Armadas ou de pressões externas para alterar o rumo do país, que segue isolado em suas próprias dinâmicas no cenário latino-americano.

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