Por Major Rafael Rozenszajn

Existe uma transformação silenciosa acontecendo no Oriente Médio que, na minha avaliação, deveria provocar muito mais indignação e debate do que provoca hoje: o desaparecimento progressivo de comunidades cristãs que estão entre as mais antigas do mundo. Para um país como o Brasil, que reúne uma das maiores populações cristãs do planeta e possui vínculos históricos e familiares profundos com países como o Líbano, considero especialmente preocupante que esse assunto permaneça praticamente à margem do debate público. Se somos realmente comprometidos com a liberdade religiosa, não podemos escolher quais perseguições merecem nossa atenção.

Existe uma transformação silenciosa acontecendo no Oriente Médio que, na minha avaliação, deveria provocar muito mais indignação e debate do que provoca...

O Berço da Fé e a Redução dos Cristãos no Oriente Médio

O cristianismo nasceu no Oriente Médio. Foi nessa região que Jesus nasceu, viveu e pregou. Foi em Jerusalém que ocorreram alguns dos acontecimentos centrais da história cristã. Foi dali que a fé cristã começou a se espalhar pelo mundo. Durante quase dois mil anos, comunidades cristãs permaneceram estabelecidas em países como Síria, Iraque, Líbano e na própria Terra Santa.

Dados Alarmantes: A Queda Populacional na Síria e no Iraque

Mas hoje essa presença está desaparecendo. Os números apresentados em diferentes levantamentos internacionais são difíceis de ignorar. De acordo com dados reunidos pelo Pew Research Center e por relatórios do U.S. Department of State, do UK Home Office, da EUA e de organizações cristãs, a presença cristã em alguns países do Oriente Médio sofreu uma redução dramática nas últimas décadas. A população cristã da Síria teria diminuído cerca de 67%, enquanto no Iraque a redução estimada chega a 86%. Para mim, o mais importante é entender que essas porcentagens não representam apenas números em uma tabela. Elas representam famílias que foram embora, igrejas que perderam seus fiéis, comunidades inteiras que foram deslocadas e tradições que correm o risco de desaparecer.

Liberdade Religiosa em Risco e o Silêncio Internacional

E aqui está uma pergunta que considero inevitável: por que essa tragédia recebe tão pouca atenção internacional? Não estou dizendo que devemos ignorar qualquer outra violação de liberdade religiosa. Pelo contrário. Minha defesa é justamente que devemos aplicar o mesmo critério a todos. Se uma comunidade religiosa está sendo perseguida ou desaparecendo, isso deveria importar independentemente de quem esteja no poder ou de qual narrativa política seja mais conveniente.

O Desaparecimento Paralelo das Comunidades Judaicas

O fenômeno não diz respeito apenas aos cristãos. A história recente do Oriente Médio também registra o quase desaparecimento das antigas comunidades judaicas de diversos países árabes. Em oito décadas, a população judaica nos países árabes do Oriente Médio teria sofrido uma redução estimada em 98%. Isso deveria nos fazer refletir. Duas comunidades religiosas milenares foram drasticamente reduzidas em diferentes partes do Oriente Médio. Não estamos falando apenas de mudanças demográficas naturais. Estamos falando de uma transformação profunda na diversidade religiosa de uma região que, durante séculos, abrigou diferentes povos e religiões.

O Contraste Demográfico: O Crescimento Cristão em Israel

É justamente nesse cenário que Israel apresenta uma realidade que, na minha opinião, merece ser muito mais discutida. Enquanto a presença cristã diminuiu drasticamente em diferentes países da região, a população cristã de Israel cresceu aproximadamente 50% desde o início dos anos 2000, segundo os dados apresentados. E considero impossível olhar para esses números e simplesmente ignorá-los. Isso não significa dizer que Israel seja perfeito. Nenhum país é. Existem conflitos, problemas e episódios de intolerância que precisam ser investigados e, quando comprovados, responsabilizados. Mas reconhecer essas imperfeições não deveria nos impedir de reconhecer também uma realidade objetiva: cristãos vivem em Israel, mantêm suas igrejas, celebram suas festas religiosas, administram instituições e praticam publicamente sua fé.

O meu ponto não é pedir que ninguém deixe de criticar Israel. Democracias devem ser criticadas. Governos devem ser questionados. Decisões políticas podem e devem ser debatidas. O que considero errado é transformar qualquer discussão sobre Israel em uma oportunidade para ignorar fatos que não se encaixam em determinada visão de mundo.

A Conexão do Brasil e o Futuro das Tradições Milenares

Para os brasileiros, esse debate deveria ter uma dimensão ainda maior. O Brasil possui uma enorme comunidade de origem libanesa e relações históricas, culturais e familiares profundas com o Oriente Médio. O destino das comunidades cristãs da região não deveria ser encarado como um problema distante. Ele também faz parte da nossa história.

E, acima de tudo, existe uma questão que considero urgente: que Oriente Médio queremos encontrar daqui a 50 anos? Queremos uma região onde Jerusalém, Nazaré e a Galileia continuem abrigando comunidades cristãs vivas, com igrejas, escolas, famílias e tradições? Ou aceitaremos silenciosamente que uma das comunidades religiosas mais antigas daquela região desapareça?

A liberdade religiosa não pode ser um princípio aplicado seletivamente. Se acreditamos verdadeiramente na diversidade, precisamos defendê-la também quando isso não serve a uma narrativa política específica. Quando uma comunidade milenar desaparece, não perdemos apenas uma população. Perdemos histórias, famílias, tradições, idiomas, igrejas e parte da memória da própria humanidade. E talvez seja exatamente por isso que o desaparecimento dos cristãos no Oriente Médio não possa mais ser tratado como uma nota de rodapé.

O desaparecimento dos cristãos no Oriente Médio é uma tragédia que o mundo insiste em ignorar 1
Rafael Rozenszajn é major da reserva e o primeiro porta-voz oficial das Forças de Defesa de Israel (IDF) para os países de língua portuguesa. Nascido no Rio de Janeiro, imigrou para Israel há mais de vinte anos. Mestre pela Northwestern University e especialista em direito internacional, é autor do livro best seller A Guerra de Narrativas (Editora Citadel).

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